Por vezes lamento não ter muito tempo para escrever. Ainda ontem, enquanto via uns minutos de televisão levei com um chorrilho de asneiras pedantes de um tal de Miguel Sousa Tavares.
O que me irrita nestes "comentadores" de tudo e coisa alguma é que são suficientemente inteligentes para saberem que estão a mentir.
Embora, confesso, no caso deste senhor, eu comece a duvidar. É que regra geral, encomendam estes encartados e iluminados para nos enfiarem com opiniões pela cabeça abaixo, de preferência já mastigadas e prontas a assimilar. Neste caso, isso não é diferente. O MST foi transportado em ombros desde cedo pela comunicação social, mostrado como um apartidário moderado, um intelectual de grande calibre e, essencialmente, um homem sensato que julga tudo por si próprio, fazendo uso da sua potência cerebral.
Mas ou este indivíduo é muito, mesmo muito mal intencionado e não tem outro objectivo senão defender o governo e o sistema tal qual como está, ou então é absurdamente estúpido.
Deixo apenas duas ou três notas.
Com o ar senhorial que lhe é característico, de quem tem um ego muito maior do que o estúdio de televisão onde o enfiam, MST lá vai debitando a cassete de propaganda do governo, com um tom pseudo-independente. Que na educação tudo estava no caminho certo, que pena era o Governo não ter conseguido ir mais longe e que as reformas eram bem intencionadas, etc. Uma vez mais, que os professores não podiam continuar na posição retrógrada de defender a Escola Pública de Abril que isso é coisa do passado, como aliás, é o próprio 25 de Abril.
Também dizia que o governo governava geralmente bem, e que o que havia eram mal-entendidos e incompreensão popular do programa e da agenda reformista do governo, principalmente na área da saúde.
Mas a que mais pasmou, foi a tirada genial sobre a segurança social. Anunciava com desfaçatez e sem pingo de vergonha o tal de MST que estava contente porque daqui a vinte anos os portugueses iam poder receber uma reforma inferior àquela a que hoje têm direito. Eis que o homem se regozijava com o facto de os portugueses num futuro não tão distante, poderem vir a receber de pensão de reforma muito menos do que aquilo que merecem face aos descontos que fazem ao longo de uma vida de trabalho. Mas não era assim tão rude, o homem ainda tem algum requinte. Dizia então que estava contente com esse anúncio dos jornais porque isso era um óptimo sinal, pois a segurança social podia finalmente assegurar reformas e pensões. Porque, segundo ele, antes desta divina intervenção do governo português, a segurança social estava na rota da falência e não tinha condições de assegurar as pensões futuras.
Aqui começamos a questionarmo-nos sobre as intenções de MST. Isto para não termos de questionarmo-nos sobre a sua capacidade lógica. Na verdade, não lhe faltando massa cinzenta, o que lhe falta, e muito, é honestidade. Ora, hoje é mais que sabido e está mais que provado que a chantagem política que o Governo fez em torno da sustentabilidade da Segurança Social foi mero pretexto para cortar nas reformas e pensões e que a Segurança Social apresenta um substantivo superavit, coisa rara nos dias que correm.
Ora, depois de ter sido claramente desmascarada a mentira do Governo, depois de se saber que o dinheiro da Segurança Social (dos trabalhadores portugueses) tem sido usado pelos governos para tudo e mais alguma coisa, para financiar formação profissional, para entregar a bancos e especuladores, para usura, para salvar empresas em apuros, para pagar subsídios de desemprego de falências fraudulentas, etc., vem este MST armado em carapau de corrida dizer que está contente porque as pensões e reformas baixaram para garantir a sustentabilidade da segurança social, depois de se ter tornado óbvio até para quem não quer ver que a segurança social nunca teve problemas de sustentabilidade e pelo contrário, até tem servido como almofada aos governos que gastam o que podem e o que não podem. Aliás, não é por acaso que o Estado é quem mais deve à Segurança Social, acumulando dívidas gigantes devidas aos trabalhadores portugueses. E vem-me aquele tipo que teve uma vida de santo, que deve ter um salário de santo e um PPR divino, que deve ganhar dinheiro à custa das mentiras que diz, gozar na cara dos portugueses que trabalham uma vida inteira para no fim terem uma pensão miserável.
É preciso descaramento. E mais que isso, é preciso desonestidade intelectual e política. Coisa que, por mais que as tvs e jornais queiram, nunca hei-de atribuir a esse senhor.
Aliás, MST estava com um ar muito altivo dizendo estas barbaridades como se toda aquela análise viesse da sua própria cabeça e não estivesse a fazer fretes a ninguém. Mas curiosamente, no canal para que mudei por já não o poder aturar, um analista menos famoso, daqueles mais descartáveis mas igualmente sabujos, dizia exactamente o mesmo, com os mesmo argumentos. Lá se foi a originalidade e a racionalidade "acima de qualquer suspeita" de MST.
sexta-feira, 13 de março de 2009
quinta-feira, 12 de março de 2009
88 anos de luta
Por que escrever 88 anos passados da fundação do Partido Comunista Português? Por que continuam os comunistas portugueses a comemorar o aniversário do seu Partido, a cada ano que passa, como aliás mais nenhum partido o faz?
É pois um desses enigmas que muitos não compreendem ou fazem por não compreender. É também uma das muitas provas de seriedade que os militantes comunistas prestam regularmente, independente do que fica bem dizer-se, do que fica bem esconder-se. Enquanto uns escondem a história do seu partido, outros ignoram-na por ser demasiado enfadonha, enquanto outros ainda preferem não perder qualquer minuto de atenção mediática lembrando o passado, os comunistas insistem em valorizar o seu. Porquê?
Agora, neste mês em que passam 88 anos após o 6 de Março de 1921, os comunistas portugueses relembram a sua história. Não escondem, nem nunca o farão, o nome do seu partido, a cor da sua bandeira, o património da sua luta. Não precisam branquer o passado, porque dele se orgulham. Partido, Comunista e Português são características que são hoje o que são, apenas pelo passado que lhes dá origem. É que este Partido não se reconstrói diariamente ao sabor do mediatismo, não produz posições política à medida dos telejornais, não altera o seu comportamento por imposições exteriores, antes pelo contrário, constrói-se com base na solidez das suas posições e alicerçado na coerência colectiva. Este não é um Partido como os outros e é isso que conta, afinal de contas.
Neste Partido, a mudança de caras não significa a alteração das suas posições políticas, da sua análise, da sua forma de intervenção, porque ele espalha as suas raízes na luta do povo português e dos trabalhadores. Por isso aqueles que esperam do PCP mutações e transgenismos espontâneos e fulminantes, se desiludem diariamente. Por isso é tão importante para os comunistas comemorar o seu passado. Pelo simples facto de que as nossas características são o fruto de um processo histórico, de um encadeamento de acontecimentos, porque o nosso presente assenta no nosso passado e é isso que nos assegura confiança no futuro.
É pois um desses enigmas que muitos não compreendem ou fazem por não compreender. É também uma das muitas provas de seriedade que os militantes comunistas prestam regularmente, independente do que fica bem dizer-se, do que fica bem esconder-se. Enquanto uns escondem a história do seu partido, outros ignoram-na por ser demasiado enfadonha, enquanto outros ainda preferem não perder qualquer minuto de atenção mediática lembrando o passado, os comunistas insistem em valorizar o seu. Porquê?
Agora, neste mês em que passam 88 anos após o 6 de Março de 1921, os comunistas portugueses relembram a sua história. Não escondem, nem nunca o farão, o nome do seu partido, a cor da sua bandeira, o património da sua luta. Não precisam branquer o passado, porque dele se orgulham. Partido, Comunista e Português são características que são hoje o que são, apenas pelo passado que lhes dá origem. É que este Partido não se reconstrói diariamente ao sabor do mediatismo, não produz posições política à medida dos telejornais, não altera o seu comportamento por imposições exteriores, antes pelo contrário, constrói-se com base na solidez das suas posições e alicerçado na coerência colectiva. Este não é um Partido como os outros e é isso que conta, afinal de contas.
Neste Partido, a mudança de caras não significa a alteração das suas posições políticas, da sua análise, da sua forma de intervenção, porque ele espalha as suas raízes na luta do povo português e dos trabalhadores. Por isso aqueles que esperam do PCP mutações e transgenismos espontâneos e fulminantes, se desiludem diariamente. Por isso é tão importante para os comunistas comemorar o seu passado. Pelo simples facto de que as nossas características são o fruto de um processo histórico, de um encadeamento de acontecimentos, porque o nosso presente assenta no nosso passado e é isso que nos assegura confiança no futuro.
domingo, 8 de março de 2009
Setúbal
Uma reportagem televisiva alertou ontem, num canal da sic, para a situação de decrepitude que se vive na cidade de Setúbal. Setúbal é a nossa cidade e vê-la tratada assim, como se de um filme se tratasse, magoa-nos e revolta-nos.
Claro que a reportagem usou o habitual estilo televisivo, amplificando significativamente a verdadeira dimensão dos problemas. Claro que se tentou passar uma imagen da cidade ainda pior do que aquela que, de facto, por cá se vai verificando. Na televisão, a repórter anunciava com dramatismo que a partir das 19.00h não era seguro passear nas ruas da baixa de Setúbal. E por detrás da repórter, as belas ruas da nossa cidade apareciam como já nos habituámos a vê-las, desertas, sozinhas e desamparadas. Os comerciantes aproveitaram a câmara de televisão para desabafar sobre os perigos que enfrentam, sobre os assaltos que sofreram. E todos em nossas casas nos revoltámos porque aquela que ali estava no televisor era a nossa cidade.
É verdade que a criminalidade em Setúbal tem vindo a sentir-se com mais intensidade. É, infelizmente, verdade que muitos têm já receio ao caminhar pelas ruas escuras da cidade e que o medo espreita, cavalgando o pânico que se espalha. Os comerciantes fecham as lojas mais cedo, não só por causa da crime, claro está, mas porque a cidade de Setúbal há muito que centrou as suas actividades comerciais na periferia e porque hoje em dia demoramos 15 minutos a chegar ao Montijo ou a Almada, onde existem centros comerciais que secam tudo à sua volta. Os comerciantes fecham mais cedo porque a baixa de Setúbal não consegue competir com a oferta avassaladora dos grandes grupos económicos, porque as lojas da baixa da cidade estão desajustadas do tempo em que nos encontramos, porque os cafés pouco inovaram, porque as lojas de confecções estagnaram, mas também porque a cidade é uma das mais socialmente deprimidas do país.
Inserida numa região desde há muito fustigada pelo desinvestimento, abandonada pelo Poder central, castigada pelo poder político e pelo poder económico, a região peninsular de Setúbal foi sempre uma das mais densamente povoadas do país e sempre das menos financiadas. Não existe investimento público na região, e o tratamento político que é dado a todas as vertentes da vida na península de Setúbal e particularmente na cidade é o mesmo que se dá a um balde de lixo. A cultura na região é ignorada ou sub-financiada (basta comparar as verbas de que dispõe ao longo dos anos o Festróia com qualquer outro festival de cinema do país); a natureza é utilizada para satisfazer caprichos dos ricos ou então para servir de substrato para a indústria extractiva (basta olharmos para as construções que vão surgindo em plenas áreas protegidas, sejam elas Reserva Natural do Estuário do Sado ou Parque Natural da Arrábida, bem como para as pedreiras que comem diariamente a Serra do Risco e a da Arrábida - e como se tal não fosse o suficiente, ainda presentearam o povo de setúbal com a co-incineração de resíduos industriais perigosos para agradar a uma cimenteira); a segurança dos cidadãos é desprezada (basta reparar que na cidade de Setúbal há 1 polícia para cada 400 cidadãos, metade da média nacional que, já de si, é má) e as condições de vida, o emprego, os salários e os direitos laborais são nesta região autênticas esmolas dadas aos trabalhadores.
A degradação da qualidade de vida dos setubalenses é fruto de um constante e prolongado desinvestimento por parte do Poder Central, por parte dos sucessivos governos. Agravado pelo facto de termos sido flagelados por 16 anos de poder autárquico à moda de Mata Cáceres (presidente da Câmara pelo PS - que ningúem esqueça a desgraça que nos trouxe), está também este comportamento dos governos que considera que os cidadãos de setúbal são homens e mulheres inferiores, para quem o direito às infra-estruturas do Estado, aos serviços públicos, ao investimento público e ao Trabalho, são menos importantes que os dos cidadãos das restantes áreas urbanas do país. É altura de pôr fim a esta política de segregação que coloca Setúbal no plano de cidade menor, como se de um arredor de Lisboa se tratasse. A proximidade com a capital deve passar a ser uma mais-valia e não um castigo.
Por isso é urgente exigir que os Governos entendam a cidade como um importante pólo, repleto de potencialidades nas mais diversas esferas da vida social e económica, que se coloque Setúbal no mapa do investimento público central e que cesse a política de excomunhão da cidade do território nacional como se tem vindo a fazer ao longo das últimas décadas.
O povo de Setúbal é diariamente discriminado por sempre ter sido uma população de esquerda. Castigado por ter experimentado as cooperativas, por ter grande vida associativa, por ter milhares de jovens trabalhadores conscientes, por ter agarrado o 25 de Abril com as mãos e ter arriscado construí-lo. Mas é hora de denunciar esta estratégia de desinvestimento levada a cabo quer pelo PS, quer pelo PSD e CDS. A estratégia de isolar Setúbal para poder culpar o seu próprio povo está hoje à vista.
Em Setúbal, precisamos de polícia, é certo. E não daquela que aparece armada até aos dentes em carrinhas azuis e que no dia seguinte de manhã desaparece. Precisamos de polícia, é certo. Mas não daquela que nos enfia o holofote do helicóptero pela janela de casa adentro só para acusar presença. Precisamos de polícia permanente, aqui colocada, como mecanismo de vigilância e segurança da cidade e da população. Polícia de proximidade. Em Setúbal precisamos dessa polícia, mas não só. Precisamos de emprego, de serviços públicos, de melhores escolas, de centros de saúde, de acessibilidades e de capacidade efectiva de gestão do território, nomeadamente o da frente ribeirinha, precisamos de investimento e de melhor cobertura dos serviços sociais do Estado, precisamos de apoio ao associativismo juvenil, de estímulos ao turismo regional, de apoio à pequenas e médias empresas. Em Setúbal precisamos de tudo isso, porque não é só a ausência de polícia que abre espaço à violência.
Claro que a reportagem usou o habitual estilo televisivo, amplificando significativamente a verdadeira dimensão dos problemas. Claro que se tentou passar uma imagen da cidade ainda pior do que aquela que, de facto, por cá se vai verificando. Na televisão, a repórter anunciava com dramatismo que a partir das 19.00h não era seguro passear nas ruas da baixa de Setúbal. E por detrás da repórter, as belas ruas da nossa cidade apareciam como já nos habituámos a vê-las, desertas, sozinhas e desamparadas. Os comerciantes aproveitaram a câmara de televisão para desabafar sobre os perigos que enfrentam, sobre os assaltos que sofreram. E todos em nossas casas nos revoltámos porque aquela que ali estava no televisor era a nossa cidade.
É verdade que a criminalidade em Setúbal tem vindo a sentir-se com mais intensidade. É, infelizmente, verdade que muitos têm já receio ao caminhar pelas ruas escuras da cidade e que o medo espreita, cavalgando o pânico que se espalha. Os comerciantes fecham as lojas mais cedo, não só por causa da crime, claro está, mas porque a cidade de Setúbal há muito que centrou as suas actividades comerciais na periferia e porque hoje em dia demoramos 15 minutos a chegar ao Montijo ou a Almada, onde existem centros comerciais que secam tudo à sua volta. Os comerciantes fecham mais cedo porque a baixa de Setúbal não consegue competir com a oferta avassaladora dos grandes grupos económicos, porque as lojas da baixa da cidade estão desajustadas do tempo em que nos encontramos, porque os cafés pouco inovaram, porque as lojas de confecções estagnaram, mas também porque a cidade é uma das mais socialmente deprimidas do país.
Inserida numa região desde há muito fustigada pelo desinvestimento, abandonada pelo Poder central, castigada pelo poder político e pelo poder económico, a região peninsular de Setúbal foi sempre uma das mais densamente povoadas do país e sempre das menos financiadas. Não existe investimento público na região, e o tratamento político que é dado a todas as vertentes da vida na península de Setúbal e particularmente na cidade é o mesmo que se dá a um balde de lixo. A cultura na região é ignorada ou sub-financiada (basta comparar as verbas de que dispõe ao longo dos anos o Festróia com qualquer outro festival de cinema do país); a natureza é utilizada para satisfazer caprichos dos ricos ou então para servir de substrato para a indústria extractiva (basta olharmos para as construções que vão surgindo em plenas áreas protegidas, sejam elas Reserva Natural do Estuário do Sado ou Parque Natural da Arrábida, bem como para as pedreiras que comem diariamente a Serra do Risco e a da Arrábida - e como se tal não fosse o suficiente, ainda presentearam o povo de setúbal com a co-incineração de resíduos industriais perigosos para agradar a uma cimenteira); a segurança dos cidadãos é desprezada (basta reparar que na cidade de Setúbal há 1 polícia para cada 400 cidadãos, metade da média nacional que, já de si, é má) e as condições de vida, o emprego, os salários e os direitos laborais são nesta região autênticas esmolas dadas aos trabalhadores.
A degradação da qualidade de vida dos setubalenses é fruto de um constante e prolongado desinvestimento por parte do Poder Central, por parte dos sucessivos governos. Agravado pelo facto de termos sido flagelados por 16 anos de poder autárquico à moda de Mata Cáceres (presidente da Câmara pelo PS - que ningúem esqueça a desgraça que nos trouxe), está também este comportamento dos governos que considera que os cidadãos de setúbal são homens e mulheres inferiores, para quem o direito às infra-estruturas do Estado, aos serviços públicos, ao investimento público e ao Trabalho, são menos importantes que os dos cidadãos das restantes áreas urbanas do país. É altura de pôr fim a esta política de segregação que coloca Setúbal no plano de cidade menor, como se de um arredor de Lisboa se tratasse. A proximidade com a capital deve passar a ser uma mais-valia e não um castigo.
Por isso é urgente exigir que os Governos entendam a cidade como um importante pólo, repleto de potencialidades nas mais diversas esferas da vida social e económica, que se coloque Setúbal no mapa do investimento público central e que cesse a política de excomunhão da cidade do território nacional como se tem vindo a fazer ao longo das últimas décadas.
O povo de Setúbal é diariamente discriminado por sempre ter sido uma população de esquerda. Castigado por ter experimentado as cooperativas, por ter grande vida associativa, por ter milhares de jovens trabalhadores conscientes, por ter agarrado o 25 de Abril com as mãos e ter arriscado construí-lo. Mas é hora de denunciar esta estratégia de desinvestimento levada a cabo quer pelo PS, quer pelo PSD e CDS. A estratégia de isolar Setúbal para poder culpar o seu próprio povo está hoje à vista.
Em Setúbal, precisamos de polícia, é certo. E não daquela que aparece armada até aos dentes em carrinhas azuis e que no dia seguinte de manhã desaparece. Precisamos de polícia, é certo. Mas não daquela que nos enfia o holofote do helicóptero pela janela de casa adentro só para acusar presença. Precisamos de polícia permanente, aqui colocada, como mecanismo de vigilância e segurança da cidade e da população. Polícia de proximidade. Em Setúbal precisamos dessa polícia, mas não só. Precisamos de emprego, de serviços públicos, de melhores escolas, de centros de saúde, de acessibilidades e de capacidade efectiva de gestão do território, nomeadamente o da frente ribeirinha, precisamos de investimento e de melhor cobertura dos serviços sociais do Estado, precisamos de apoio ao associativismo juvenil, de estímulos ao turismo regional, de apoio à pequenas e médias empresas. Em Setúbal precisamos de tudo isso, porque não é só a ausência de polícia que abre espaço à violência.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
apoiantes do PS buscam apoio nos partidos do sistema
enquanto ouço o sócrates num canal, debitando as enormidades que se podiam esperar dum congresso do PS, verifico noutro canal uma sondagem que pergunta aos apioantes do PS com quem preferem uma aliança em caso de maioria relativa do seu partido após as eleições legislativas.
Não tenho surpresa nenhuma. A maior parte (42%) prefere o Bloco de Esquerda.
30% preferem o PSD e 14.4% prefere o PCP.
Por que será que não fico minimamente impressionado?
Fácil: quem aplaude um discurso como o de Sócrates naquele congresso não pode querer alianças com o PCP. É sintomático que as busquem com quem partilha o estilo: o BE e o PPD.
Também significa que a cassete do Bloco dirigida claramente para os PS's descontentes tem provocado o seu efeito. Que importa revolucionar o sistema se podemos só ganhar eleições não é, oh Louçã?
cá por mim, no meio de tanta tristeza, com coisas destas até fico contente.
Não tenho surpresa nenhuma. A maior parte (42%) prefere o Bloco de Esquerda.
30% preferem o PSD e 14.4% prefere o PCP.
Por que será que não fico minimamente impressionado?
Fácil: quem aplaude um discurso como o de Sócrates naquele congresso não pode querer alianças com o PCP. É sintomático que as busquem com quem partilha o estilo: o BE e o PPD.
Também significa que a cassete do Bloco dirigida claramente para os PS's descontentes tem provocado o seu efeito. Que importa revolucionar o sistema se podemos só ganhar eleições não é, oh Louçã?
cá por mim, no meio de tanta tristeza, com coisas destas até fico contente.
domingo, 22 de fevereiro de 2009
como as coisas são
Os jornais anunciam com naturalidade que existem estudantes a recorrer ao banco alimentar contra a fome enquanto frequentam o ensino superior. ainda dias antes anunciavam que cada vez mais estudantes desse grau de ensino não têm dinheiro suficiente para pagar as propinas.
Agora mesmo, há minutos, vejo nas notícias de um qualquer telejornal que o Banco alimentar contra a fome nunca tivera tanta procura e que cada dia que passa lhe são dirigidos mais pedidos, quer por parte de instituições de caridade, quer por parte de indivíduos ou famílias. E, no entanto, lá vai o banco alimentar dando resposta e satisfazendo os pedidos, para que ninguém se lembre de pôr em causa o sistema e o papel do Estado. E, claro que, sobre o Estado, nem uma palavra que fosse no famigerado telejornal. A crise é fatídica e independente das políticas que têm sido seguidas em Portugal e no Mundo. A fome é incontornável porque é resultado desse mau hábito que as pessoas têm que é o de viverem acima das suas possibilidades. Por isso mesmo, valha-nos nosso senhor que ainda existem instituições com comida para dar e vender, postas em cestos por quem pretende expiar pecados e comprar os melhores terrenos disponíveis nesse paraíso para onde só os afortunados têm lugar. "oremos ao senhor"
Então não existe neste país, Constituição da República? Então não existe neste país quem tenha sido eleito para a cumprir e fazer cumprir? E não existe na ocidental praia lusitana quem tenha a responsabilidade de erradicar a fome e a pobreza?
Parece que não.
Existe sim, quem assine protocolos com as Instituiçoes particulares de solidariedade social, com a Igreja Católica, com os bancos ora beneméritos, ora corruptos.
Não existe quem assegure funcionamento de cantinas universitárias com refeições sociais, nem quem trate de garantir bolsas de estudo que atenuem ou mesmo eliminem as assimtrias sociais.
Não existe quem financie o Ensino Superior como bem para todo o país, pilar da nossa democracia e eixo do nosso desenvolvimento social, cultural e económico.
Mas existe quem entregue milhões aos bancos para eles nos emprestarem o dinheiro para podermos estudar enquanto trabalhamos contratados à peça e ao mês num restaurante de hamburgers ou atrás do telefone no call-center.
Existe quem lute, ainda que silenciado, contra tudo isto. Contra a displicência dos bancos alimentares, contra a complacência das manhãs da tvi e dos programas que exploram os mais humanos sentimentos às velhotas. Existe quem grite que o banco alimentar contra a fome atenua os efeitos de uma política que lhe dá razão de existir. Sim, atenua durante um mês ou mesmo dois. Pode até, quem sabe atenuar os efeitos do capitalismo em uma pessoa, uma vida inteira. Mas agrava-os no longo prazo e em termos colectivos. Porque são esses expedientes, esses mecanismos perversos de caridade que silenciam a luta, olvidam o papel dos verdadeiros responsáveis e escondem o papel dos explorados.
Os explorados não são os coitadinhos a quem se tem de dar algo, são os homens e mulheres de rosto erguido a quem tudo foi tirado pelos mesmos que ora tentam sorrir em festas de beneficiência.
Agora mesmo, há minutos, vejo nas notícias de um qualquer telejornal que o Banco alimentar contra a fome nunca tivera tanta procura e que cada dia que passa lhe são dirigidos mais pedidos, quer por parte de instituições de caridade, quer por parte de indivíduos ou famílias. E, no entanto, lá vai o banco alimentar dando resposta e satisfazendo os pedidos, para que ninguém se lembre de pôr em causa o sistema e o papel do Estado. E, claro que, sobre o Estado, nem uma palavra que fosse no famigerado telejornal. A crise é fatídica e independente das políticas que têm sido seguidas em Portugal e no Mundo. A fome é incontornável porque é resultado desse mau hábito que as pessoas têm que é o de viverem acima das suas possibilidades. Por isso mesmo, valha-nos nosso senhor que ainda existem instituições com comida para dar e vender, postas em cestos por quem pretende expiar pecados e comprar os melhores terrenos disponíveis nesse paraíso para onde só os afortunados têm lugar. "oremos ao senhor"
Então não existe neste país, Constituição da República? Então não existe neste país quem tenha sido eleito para a cumprir e fazer cumprir? E não existe na ocidental praia lusitana quem tenha a responsabilidade de erradicar a fome e a pobreza?
Parece que não.
Existe sim, quem assine protocolos com as Instituiçoes particulares de solidariedade social, com a Igreja Católica, com os bancos ora beneméritos, ora corruptos.
Não existe quem assegure funcionamento de cantinas universitárias com refeições sociais, nem quem trate de garantir bolsas de estudo que atenuem ou mesmo eliminem as assimtrias sociais.
Não existe quem financie o Ensino Superior como bem para todo o país, pilar da nossa democracia e eixo do nosso desenvolvimento social, cultural e económico.
Mas existe quem entregue milhões aos bancos para eles nos emprestarem o dinheiro para podermos estudar enquanto trabalhamos contratados à peça e ao mês num restaurante de hamburgers ou atrás do telefone no call-center.
Existe quem lute, ainda que silenciado, contra tudo isto. Contra a displicência dos bancos alimentares, contra a complacência das manhãs da tvi e dos programas que exploram os mais humanos sentimentos às velhotas. Existe quem grite que o banco alimentar contra a fome atenua os efeitos de uma política que lhe dá razão de existir. Sim, atenua durante um mês ou mesmo dois. Pode até, quem sabe atenuar os efeitos do capitalismo em uma pessoa, uma vida inteira. Mas agrava-os no longo prazo e em termos colectivos. Porque são esses expedientes, esses mecanismos perversos de caridade que silenciam a luta, olvidam o papel dos verdadeiros responsáveis e escondem o papel dos explorados.
Os explorados não são os coitadinhos a quem se tem de dar algo, são os homens e mulheres de rosto erguido a quem tudo foi tirado pelos mesmos que ora tentam sorrir em festas de beneficiência.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
outra vez
O Projecto de Lei do PCP e o Projecto de Lei do PS sobre Educação Sexual nas Escolas foram hoje aprovados. Uma vez mais a Assembleia da República dá um sinal claro sobre as suas orientações para a Educação Sexual ser finalmente aplicada nas Escolas.
E existem leis desde 1984 - como resultado de uma intervenção parlamentar do PCP que se origina em 1982 - que nunca foram cumpridas.
O PS votou favoravelmente o Projecto do PCP e vice-versa por um motivo muito simples: o Projecto do PS é praticamente uma cópia do apresentado pelo PCP. Uma vez mais, o PCP segue na frente do progresso.
No entanto, caso os governos continuem a boicotar a lei como têm feito até aqui, pouco significado terá este dia de hoje. Esperemos que assim não seja, que esta matéria ultrapassa emoções partidárias: é uma questão de saúde pública e de emancipação humana.
Mas não resisto: o PS sempre se afirma - por palavras e nunca por actos - grande defensor da educação sexual e no entanto tem responsabilidades governativas de grande importância desde 1984 e nunca cumpriu. Pelo contrário, sempre adiou ou contrariou a aplicação da lei. Da mesma forma, tem contribuído muito para o desmantelamento do Serviço Nacional de Saúde, encerrado Centros de Saúde um pouco por todo o país, não comparticipa as novas pílulas femininas, não distribui contraceptivos gratuitos, não apoia os jovens no planeamento familiar e por aí fora...
É que, mesmo depois de demonstrada esta boa-vontade, não se podem apagar responsabilidades.
E existem leis desde 1984 - como resultado de uma intervenção parlamentar do PCP que se origina em 1982 - que nunca foram cumpridas.
O PS votou favoravelmente o Projecto do PCP e vice-versa por um motivo muito simples: o Projecto do PS é praticamente uma cópia do apresentado pelo PCP. Uma vez mais, o PCP segue na frente do progresso.
No entanto, caso os governos continuem a boicotar a lei como têm feito até aqui, pouco significado terá este dia de hoje. Esperemos que assim não seja, que esta matéria ultrapassa emoções partidárias: é uma questão de saúde pública e de emancipação humana.
Mas não resisto: o PS sempre se afirma - por palavras e nunca por actos - grande defensor da educação sexual e no entanto tem responsabilidades governativas de grande importância desde 1984 e nunca cumpriu. Pelo contrário, sempre adiou ou contrariou a aplicação da lei. Da mesma forma, tem contribuído muito para o desmantelamento do Serviço Nacional de Saúde, encerrado Centros de Saúde um pouco por todo o país, não comparticipa as novas pílulas femininas, não distribui contraceptivos gratuitos, não apoia os jovens no planeamento familiar e por aí fora...
É que, mesmo depois de demonstrada esta boa-vontade, não se podem apagar responsabilidades.
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
a degradação
- a propósito da centralização da política nacional em indivíduos, a propósito das declarações de António José Seguro ontem na TV sobre o facto de se ter retirado da sala para não votar a nacionalização do BPN;
- a propósito dos votos contrários à tendência esmagadora no PS, por parte de alguns dos seus deputados;
- a propósito das declarações ontem na tv do candidato do PSD à Câmara Municipal de Odivelas, Hernâni Carvalho.
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O debate parlamentar dificilmente poderá ser qualquer outra coisa além do que realmente é. Uma prova competitiva de oratória que funciona como desculpa para uma democracia empobrecida e para o lateral desfile de vaidades que por ali se passeia ostensivamente. Não é um problema da Assembleia da República propriamente dita, é um problema que reside essencialmente na sua composição partidária e no sistema que acaba por sustentar, o neo-liberalismo económico.
Neste quadro, o parlamento português denigre-se a si próprio sem carecer da ajuda empenhada da comunicação social que, prestável, destaca com prontidão toda a barbaridade que nessa casa se passa e expõe com relevo qualquer merda que se passe na vida dos senhores deputados, desde que seja suficientemente negra e digna de embaraço pessoal. Claro que se deixam de fora as atrocidades políticas que por ali se cometem, que essas não interessam a ninguém, claro que se deixam de fora os verdadeiros crimes que se realizam diariamente na assembleia da república contra o povo português, contra os trabalhadores, as mulheres, os homens e os jovens portugueses.
Temos tido a oportunidade de verificar diariamente os efeitos da política de direita que se abate sobre o nosso país e sobre o nosso povo desde há cerca de 30 anos consecutivos. Mas para esses efeitos pouca atenção têm os jornais, porque mais importante do que isso é saber com quem namora o raio do primeiro-ministro; ou saber se o senhor se sente muito ou pouco ofendido quando lhe chamam mentiroso. Mas isto são trocos da vida política.
Na verdade escrevo para desabafar sobre a campanha de destruição da democracia que está em marcha, centrando no indivíduo o desempenho e a posição política. Cada vez mais se intensifica a campanha anti-partidária, dirigida genericamente contra os partidos políticos portugueses de forma a centrar o desenvolvimento das políticas nos indivíduos, desviando-o do interior dos partidos. A culpabilização não do partido e da sua orientação política, mas da sua função formal e da sua estrutura propriamente dita, pelas falhas e atentados políticos tem um objectivo muito claro que certamente se conjuga com outros, mas que é no essencial o de desresponsabilizar as políticas propriamente ditas.
Aparece não raras vezes o "interesse partidário" como um mal em si mesmo, como que um "interesse oculto" e "mafioso", quando na verdade o "interesse partidário" é o único escrutinável, o único a quem é possível assacar responsabilidades. O anátema lançado contra o "partido", contra a base estrutural da democracia portuguesa, como estabelecida na Constituição, é a forma mais fácil de ilibar os responsáveis pelo estado a que chegámos e, principalmente, ilibar as escolhas políticas que esses mesmos responsáveis, nesses mesmos partidos, têm tomado e aplicado. A demonização do partido em si-mesmo, independentemente da política que pratica, da sua forma de organização, da sua proposta política é a forma mais simples de incluir todos os partidos no mesmo saco, mas é, mais grave do que isso ainda, atacar um dos pilares constitucionais da democracia: os partidos, assim colocando no centro da vida política nacional, a gestão como substituinte da política, o génio individual como substituto do trabalho colectivo, a empresa em vez do partido.
O caminho que seguirá o capitalismo é o da busca de todas as soluções que convenham à classe dominante. Partidos servem hoje, podem não servir amanhã.
Para os indivíduos que se afirmam acima da "manipulação partidária", que se dizem não submissos aos "interesses partidários", importa perguntar que raio fazem em partidos cujos interesses são diferentes dos "interesses colectivos do país e do povo"? Aos senhores que orgulhosamente votam de forma diferente da dos seus partidos na Assembleia da República, por exemplo e que com iosso granjeam fortes apoios no mundo da comunicação social, passando a ser o centro de todas as atenções, importa perguntar:
"como podem orgulhar-se de trair o povo? como podem orgulhar-se de desrespeitar tanto o povo português como o vosso próprio partido? como podem assumir a posição cómoda de sair da sala em votações incómodas? como podem assumir posições contrárias às do vosso partido sem que delas retirem consequências? como podem continuar a enganar tudo e todos, destruindo a imagem do sistema político português?"
É que, no actual quadro, a amplificação da ideia de que o Deputado é o eixo da política e não o Grupo Parlamentar e o Partido em que se insere, faz parte da campanha anti-partidos e anti-democracia. Faz parte de uma ofensiva de desmantelamento da democraica que, infelizmente, se conjuga amiúde com vaidades e egos do tamanho do mundo.
- a propósito dos votos contrários à tendência esmagadora no PS, por parte de alguns dos seus deputados;
- a propósito das declarações ontem na tv do candidato do PSD à Câmara Municipal de Odivelas, Hernâni Carvalho.
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O debate parlamentar dificilmente poderá ser qualquer outra coisa além do que realmente é. Uma prova competitiva de oratória que funciona como desculpa para uma democracia empobrecida e para o lateral desfile de vaidades que por ali se passeia ostensivamente. Não é um problema da Assembleia da República propriamente dita, é um problema que reside essencialmente na sua composição partidária e no sistema que acaba por sustentar, o neo-liberalismo económico.
Neste quadro, o parlamento português denigre-se a si próprio sem carecer da ajuda empenhada da comunicação social que, prestável, destaca com prontidão toda a barbaridade que nessa casa se passa e expõe com relevo qualquer merda que se passe na vida dos senhores deputados, desde que seja suficientemente negra e digna de embaraço pessoal. Claro que se deixam de fora as atrocidades políticas que por ali se cometem, que essas não interessam a ninguém, claro que se deixam de fora os verdadeiros crimes que se realizam diariamente na assembleia da república contra o povo português, contra os trabalhadores, as mulheres, os homens e os jovens portugueses.
Temos tido a oportunidade de verificar diariamente os efeitos da política de direita que se abate sobre o nosso país e sobre o nosso povo desde há cerca de 30 anos consecutivos. Mas para esses efeitos pouca atenção têm os jornais, porque mais importante do que isso é saber com quem namora o raio do primeiro-ministro; ou saber se o senhor se sente muito ou pouco ofendido quando lhe chamam mentiroso. Mas isto são trocos da vida política.
Na verdade escrevo para desabafar sobre a campanha de destruição da democracia que está em marcha, centrando no indivíduo o desempenho e a posição política. Cada vez mais se intensifica a campanha anti-partidária, dirigida genericamente contra os partidos políticos portugueses de forma a centrar o desenvolvimento das políticas nos indivíduos, desviando-o do interior dos partidos. A culpabilização não do partido e da sua orientação política, mas da sua função formal e da sua estrutura propriamente dita, pelas falhas e atentados políticos tem um objectivo muito claro que certamente se conjuga com outros, mas que é no essencial o de desresponsabilizar as políticas propriamente ditas.
Aparece não raras vezes o "interesse partidário" como um mal em si mesmo, como que um "interesse oculto" e "mafioso", quando na verdade o "interesse partidário" é o único escrutinável, o único a quem é possível assacar responsabilidades. O anátema lançado contra o "partido", contra a base estrutural da democracia portuguesa, como estabelecida na Constituição, é a forma mais fácil de ilibar os responsáveis pelo estado a que chegámos e, principalmente, ilibar as escolhas políticas que esses mesmos responsáveis, nesses mesmos partidos, têm tomado e aplicado. A demonização do partido em si-mesmo, independentemente da política que pratica, da sua forma de organização, da sua proposta política é a forma mais simples de incluir todos os partidos no mesmo saco, mas é, mais grave do que isso ainda, atacar um dos pilares constitucionais da democracia: os partidos, assim colocando no centro da vida política nacional, a gestão como substituinte da política, o génio individual como substituto do trabalho colectivo, a empresa em vez do partido.
O caminho que seguirá o capitalismo é o da busca de todas as soluções que convenham à classe dominante. Partidos servem hoje, podem não servir amanhã.
Para os indivíduos que se afirmam acima da "manipulação partidária", que se dizem não submissos aos "interesses partidários", importa perguntar que raio fazem em partidos cujos interesses são diferentes dos "interesses colectivos do país e do povo"? Aos senhores que orgulhosamente votam de forma diferente da dos seus partidos na Assembleia da República, por exemplo e que com iosso granjeam fortes apoios no mundo da comunicação social, passando a ser o centro de todas as atenções, importa perguntar:
"como podem orgulhar-se de trair o povo? como podem orgulhar-se de desrespeitar tanto o povo português como o vosso próprio partido? como podem assumir a posição cómoda de sair da sala em votações incómodas? como podem assumir posições contrárias às do vosso partido sem que delas retirem consequências? como podem continuar a enganar tudo e todos, destruindo a imagem do sistema político português?"
É que, no actual quadro, a amplificação da ideia de que o Deputado é o eixo da política e não o Grupo Parlamentar e o Partido em que se insere, faz parte da campanha anti-partidos e anti-democracia. Faz parte de uma ofensiva de desmantelamento da democraica que, infelizmente, se conjuga amiúde com vaidades e egos do tamanho do mundo.
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