sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

a degradação

- a propósito da centralização da política nacional em indivíduos, a propósito das declarações de António José Seguro ontem na TV sobre o facto de se ter retirado da sala para não votar a nacionalização do BPN;
- a propósito dos votos contrários à tendência esmagadora no PS, por parte de alguns dos seus deputados;
- a propósito das declarações ontem na tv do candidato do PSD à Câmara Municipal de Odivelas, Hernâni Carvalho.

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O debate parlamentar dificilmente poderá ser qualquer outra coisa além do que realmente é. Uma prova competitiva de oratória que funciona como desculpa para uma democracia empobrecida e para o lateral desfile de vaidades que por ali se passeia ostensivamente. Não é um problema da Assembleia da República propriamente dita, é um problema que reside essencialmente na sua composição partidária e no sistema que acaba por sustentar, o neo-liberalismo económico.

Neste quadro, o parlamento português denigre-se a si próprio sem carecer da ajuda empenhada da comunicação social que, prestável, destaca com prontidão toda a barbaridade que nessa casa se passa e expõe com relevo qualquer merda que se passe na vida dos senhores deputados, desde que seja suficientemente negra e digna de embaraço pessoal. Claro que se deixam de fora as atrocidades políticas que por ali se cometem, que essas não interessam a ninguém, claro que se deixam de fora os verdadeiros crimes que se realizam diariamente na assembleia da república contra o povo português, contra os trabalhadores, as mulheres, os homens e os jovens portugueses.

Temos tido a oportunidade de verificar diariamente os efeitos da política de direita que se abate sobre o nosso país e sobre o nosso povo desde há cerca de 30 anos consecutivos. Mas para esses efeitos pouca atenção têm os jornais, porque mais importante do que isso é saber com quem namora o raio do primeiro-ministro; ou saber se o senhor se sente muito ou pouco ofendido quando lhe chamam mentiroso. Mas isto são trocos da vida política.

Na verdade escrevo para desabafar sobre a campanha de destruição da democracia que está em marcha, centrando no indivíduo o desempenho e a posição política. Cada vez mais se intensifica a campanha anti-partidária, dirigida genericamente contra os partidos políticos portugueses de forma a centrar o desenvolvimento das políticas nos indivíduos, desviando-o do interior dos partidos. A culpabilização não do partido e da sua orientação política, mas da sua função formal e da sua estrutura propriamente dita, pelas falhas e atentados políticos tem um objectivo muito claro que certamente se conjuga com outros, mas que é no essencial o de desresponsabilizar as políticas propriamente ditas.

Aparece não raras vezes o "interesse partidário" como um mal em si mesmo, como que um "interesse oculto" e "mafioso", quando na verdade o "interesse partidário" é o único escrutinável, o único a quem é possível assacar responsabilidades. O anátema lançado contra o "partido", contra a base estrutural da democracia portuguesa, como estabelecida na Constituição, é a forma mais fácil de ilibar os responsáveis pelo estado a que chegámos e, principalmente, ilibar as escolhas políticas que esses mesmos responsáveis, nesses mesmos partidos, têm tomado e aplicado. A demonização do partido em si-mesmo, independentemente da política que pratica, da sua forma de organização, da sua proposta política é a forma mais simples de incluir todos os partidos no mesmo saco, mas é, mais grave do que isso ainda, atacar um dos pilares constitucionais da democracia: os partidos, assim colocando no centro da vida política nacional, a gestão como substituinte da política, o génio individual como substituto do trabalho colectivo, a empresa em vez do partido.

O caminho que seguirá o capitalismo é o da busca de todas as soluções que convenham à classe dominante. Partidos servem hoje, podem não servir amanhã.

Para os indivíduos que se afirmam acima da "manipulação partidária", que se dizem não submissos aos "interesses partidários", importa perguntar que raio fazem em partidos cujos interesses são diferentes dos "interesses colectivos do país e do povo"? Aos senhores que orgulhosamente votam de forma diferente da dos seus partidos na Assembleia da República, por exemplo e que com iosso granjeam fortes apoios no mundo da comunicação social, passando a ser o centro de todas as atenções, importa perguntar:

"como podem orgulhar-se de trair o povo? como podem orgulhar-se de desrespeitar tanto o povo português como o vosso próprio partido? como podem assumir a posição cómoda de sair da sala em votações incómodas? como podem assumir posições contrárias às do vosso partido sem que delas retirem consequências? como podem continuar a enganar tudo e todos, destruindo a imagem do sistema político português?"

É que, no actual quadro, a amplificação da ideia de que o Deputado é o eixo da política e não o Grupo Parlamentar e o Partido em que se insere, faz parte da campanha anti-partidos e anti-democracia. Faz parte de uma ofensiva de desmantelamento da democraica que, infelizmente, se conjuga amiúde com vaidades e egos do tamanho do mundo.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

14 de Maio

Já tenho os bilhetes. é melhor irem depressa.

vale a pena ver e ouvir.

aqui
e aqui.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

João Aguardela

Ficámos tristes porque te foste. Bem-hajas pelo que nos deixaste!

sábado, 10 de janeiro de 2009

Avaliação de Professores - até quando a estupidez?

No dia 8 de Janeiro de 2009, por agendamento potestativo do PSD, esteve novamente em discussão a avaliação de desempenho de professores na Assembleia da República.

Muitos chegaram a depositar esperanças em mais este acto de teatro parlamentar, muitos pensaram que seria possível partir a dureza e a prepotência do PS, que o bom-senso iluminaria, nem que por segundos fugazes, as mentes e as consciências daquela rapaziada, ou pelo menos de 5 deles, que era quanto bastava.

1. importa dizer que o PSD agendou este debate potestativamente na sequência de uma rotunda irresponsabilidade. Depois dos deputados desse mesmo PSD terem faltado em massa aos trabalhos de Novembro, onde outras resoluções de suspensão de avaliação de professores haviam sido rejeitadas, e mesmo depois de alguns deputados do PSD terem vindo dizer que faltaram conscientemente à votação, o tal partido (se é que ainda se pode chamar isso ao PSD) apresenta um projecto de lei para se redimir e pedir desculpa aos professores. Revestido da categoria de maior partido da oposição, mereceu o destaque de vários órgãos da comunicação social e a esperança de inúmeros milhares de professores. O teatro e o oportunismo, a hipocrisia e a manipulação, pelos vistos compensam na política.

2. os deputados do partido socialista que votaram favoravelmente as resoluções de suspensão da avaliação de professores no final do ano passado tiveram honras de grande destaque, particularmente o manuel alegre, salvador da esquerda, douto e digníssimo vulto da democracia portuguesa. Nessa altura votavam-se resoluções que resultam como recomendações ao Governo e, num claro cenário de falta de mais de 50 deputados na Câmara, 30 dos quais do PSD. Isso deixou alegre e seus amigalhaços de mãos-livres para fingir que votavam em consciência, contra o PS, fazendo assim valer a sua dignidade mais do que a lealdade a um partido que vendeu toda a que tinha aos interesses económicos e que se ajoelha diariamente a estados estrangeiros. Foi, para alegre e amigalhaços, uma votação relativamente simples, principalmente pela impossibilidade de provocar impacto verdadeiro. Independentemente do seu voto, a posição do partido socialista e do governo, venceria.

3. no dia 8 de Janeiro de 2009, poucos meses depois, o plenário estava cheio e o PSD fazia o seu teatro de arrependimento. Os olhares de todo o país estavam postos no plenário da Assembleia da República. Que fazer agora? Além disso, dois dos projectos de resolução converteram-se em Projecto de Lei para a suspensão da avaliação de professores (o do PEV e o do PSD. - o do BE converteu-se num projecto de lei de novo regime de avaliação, propondo assim aquilo que ainda nem os sindicatos propuseram - louve-se a clarividência do grupelho!). Ou seja, desta feita, a decisão da Assembleia teria força de lei, de obrigatório cumprimento pelo Executivo, entenda-se. Os resultados pasmaram muitos, surpreenderam outros e desiludiram uns quantos.

4. atente-se: 5 deputados do PS, entre os quais alegre, abstêm-se na votação do Projecto de Lei do PSD, 4 votam favoravelmente o do PEV e do BE e um abstém-se nestes dois últimos. Assim, por um voto, a avaliação passou. Fosse eu outro e acreditaria nas coincidências e na ingenuidade de Matilde Souza Franco (que, coitada, é de facto uma perdida ali no meio, mas é-o voluntariamente). Mas reparem como manuel alegre, julia caré, teresa portugal e outro que não me lembro, votaram a favor - para não castigar a sua imagem pública, escolhendo um mártir para se abster, assim assegurando que a lei não passava. Curiosamente, de 6 deputados pela suspensão da avaliação passamos para 4 e uma abstenção, exactamente e estritamente o necessário para chumbar. Mas ao mesmo tempo, o suficiente e o necessário para manter a ilusão de que existe uma esquerda sensível e humanista no PS, para manter a ilusão da existência de um suposto homem de esquerda, que continua a justificar os votos na direita. manuel alegre pode dizer-se o que quiser, mas a verdade, por mais voltas que se lhe dê, é que continua a beneficiar o PS com a cantiga da esquerda, apelando ao voto sempre no PS, incluindo sempre o PS.

5. obviamente que a posição de manuel alegre e seus amigos foi combinada com o bloco de esquerda. só assim se explica que manuel alegra se asbtenha no Projecto de Lei do PSD que apenas propunha a suspensão da avaliação em curso e tenha votado a favor o do BE que propunha todo um novo regime, mesmo sem ter ainda esse regime sido discutido com sindicatos e estruturas representativas de professores. Mesmo sem que manuel alegre perceba puto de avaliação de professores.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

faltas dos deputados

Coisa rara, liguei o televisor que ali tenho na sala. Por mero acaso passei pela Sic notícias, onde uma tal de Inês Serra Lopes e uma Maria João Silva se banhavam em suas próprias inteligências, em canções masturbatórias de fazedoras de opinião, estatuto que certamente acolhem com deleite.

Estava eu esperando a asneirada do costume, quando a D. Inês salta com uma frase do estilo "...não podemos pôr os deputados todos no mesmo saco. Há deputados bons e deputados maus, uns que fazem muito e outros tendencialmente nada." Eis que me tomou de assalto e de boa surpresa tal frase. Pensei ainda: "querem ver que vai dizer uma jeito...". Mas foi sol de pouca dura porque logo depois cita como deputados exemplares dois tipos quaisquer do passado parlamentar português pertencentes ao PSD. Maria João Silva ainda retorquiu exaltando o carácter de Matilde Sousa Franco (desafio a consultar o site do parlamento - www.parlamento.pt - para verificar que esta Deputada é autora de 4 magníficos projectos de lei, 2 projectos de resolução e 4 requerimentos ao Governo). Curiosamente, para falar de deputados que não são todos iguais, Inês e Maria escolhem os deputados mais iguais que pode haver.

Mas a coisa piora: depois de ter elogiado quatro ou cinco deputados, entre os quais Zita Seabra (que afinal faltou às votações de sexta feira porque não queria votar de acordo com o seu partido - o PSD e não por desleixo, desenganem-se os maldosos), o painel de ilustres pensadoras (Inês e Maria) ainda atira que o grande problema não são, como depois de tanto elogio se torna evidente, os deputados. O grande problema são os partidos. Esses sim, culpados de tudo quanto há de mau no parlamento português. Porque não se renovam, porque não dão oportunidade aos deputados para trabalhar, porque impõem as orientações de voto, e por aí fora.

Ora se eu estou não estou de acordo que metam no mesmo saco todos os deputados, menos ainda aceitarei que se metam no mesmo saco todos os partidos. Com efeito, é curioso verificar que neste debate apenas se falou de PS e PSD. Excluídos, voluntária e deliberadamente estou certo, ficaram todos os restantes, a saber: PEV, BE, CDS-PP, PCP. E basta consultar o mesmo www.parlamento.pt para verificar que qualquer deputado de qualquer desses partidos terá feito bastante mais que qualquer deputado do PS e do PSD, em autoria de iniciaitivas, em deslocações e visitas, em requerimentos e perguntas ao Governo. Refiro todos porque estou certo de que assim será. No entanto, não seria possível não destacar o Grupo Parlamentar que mais trabalha, que mais propõe, que mais fiscaliza: o do PCP. Desafio a visitar esse site e verificar quantas iniciativas, quantas perguntas e requerimentos, quantos projectos terá apresentado qualquer um dos comunistas eleitos na Assembleia.

Esses abutres velhos, essas "ineses" e "marias", bem podem continuar cumprindo o seu papel contra a democracia, contra os partidos enquanto pilares dessa mesma democracia, mas não poderão nunca apagar o papel que alguns desses partidos desempenham, dignificando a política e mostrando cada vez mais claramente, que os partidos NÃO SÃO TODOS IGUAIS.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

gazeta política

Podia ser o nome de um jornal de referência, mas é uma prática comum no parlamento português. Comentadores, jornalistas e analistas tentam fazer dela uma novidade, quando as faltas de deputados às reuniões plenárias da Assembleia da República existem desde que existe Assembleia da República. O mais engraçado é ver como todos em coro tentam com isto castigar os partidos e os "políticos" em geral. É uma magna oportunidade para falar da "Assembleia", do "Parlamento", dos "partidos", dos "políticos".

E para aqueles que têm andado por aí a afiar as gânfias contra os partidos e mesmo contra a democracia, cada falta de um deputado é um doce que se lhes dá. Ora não me cabe, por falta de vontade e ausência de mandato, vir aqui defender os deputados. Antes pelo contrário cabe-me atacar muitos deles pela forma vil e torpe como concebem e efectuam o exercício do mandato que o povo lhes confiou através do voto.

Mas o que é mais importante no meio disto tudo é que esta é uma oportunidade, não para atacar a democracia, mas para destacar o trigo do joio. Para evidenciar o carácter de cada grupo parlamentar. Mas ainda mais importante que tudo isso, e aí é que está a questão fulcral que ninguém diz nos jornais ou na TV, é a política projectada e executada por cada força política.

Os deputados do Partido Comunista Português não faltam às votações, a não ser que outra tarefa política lhes tenha sido atribuída. Os deputados do PCP não se abarbatam ao salário, entregam-no ao Partido para respeitar o princípio de "não ser beneficiado nem prejudicado em cargos públicos", os deputados do PCP participam nas mais variadas vertentes do trabalho parlamentar independentemente do mediatismo que tenham, os deputados do PCP deslocam-se ao contacto com as populações praticamente todos os dias, e não só em dias de campanha eleitoral. Mas muito mais do que isso, o PCP, através desses deputados, cultiva e propõe uma política diferente: ao serviço do povo, ao serviço dos trabalhadores e das necessidades e interesses nacionais.

É esse compromisso entre o PCP e o povo português que dá a esse Grupo Parlamentar características próprias, por serem desse partido e por mais nenhuma outra razão. Mais importante que analisar as faltas e com isso culpabilizar "os partidos todos iguais", importa denunciar o essencial: a política de cada grupo parlamentar, as suas propostas, os seus projectos ou ausência deles; isso sim, verdadeira causa do estado em que o país se encontra.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

a diferença é substancial

Por que será que sempre que alguém fala em "convergências" todos à volta entendem "coligação eleitoral"?