segunda-feira, 6 de junho de 2011

Erro de paralaxe político

O erro de paralaxe é um erro de perspectiva óptica: o posicionamento de um dado objecto em relação a outro varia consoante a perspectiva do observador. Esse erro é conhecido de todos os que trabalham com instrumentos de medição analógicos, porém deve integrar a análise de todos os que trabalham com a política no dia-a-dia.

É comum ouvirmos dizer, particularmente após resultados eleitorais como os de ontem, que o povo gosta de sofrer, que é burro, que é inconsciente, que é isto e aquilo. Ou seja, nós comunistas seríamos uma espécie de seres iluminados, colectiva e individualmente considerados.

Esta sobranceria que por vezes nos tolda o olhar e a perspectiva é fruto de um brutal erro de paralaxe, ou seja, de um erro grosseiro de perspectiva. Esta tese é apenas o resultado de um erro de perspectiva na análise, principalmente de perspectiva de classe, mas também de perspectiva meramente política e analítica.

É comum e compreensível que analisemos o meio que nos rodeia com base no que somos e conhecemos, ignorando mesmo muitas vezes que a maior parte desse meio não se encaixa no que conhecemos. É comum pensar que todos têm acesso a determinada informação "porque eu tenho". Obviamente, a leitura que se fará de um determinado contexto em função dessa premissa, será profundamente influenciada pelo erro de perspectiva. Ou seja, muitas vezes incorremos no erro de interpretar os outros à luz dos nossos padrões de conhecimento, culturais, sociais, económicos, políticos, ou dos padrões do meio a que estamos habituados, ignorando assim uma das componentes mais fundamentais do meio que nos rodeia: a cultura e doutrina dominantes.

É claro que todos lhe somos permeáveis, embora em graus diferenciados. Ainda assim, julgo que será justo dizer-se que a discussão colectiva e a capacidade que os comunistas têm de caldear experiências pessoais e colectivas sempre com o contributo decisivo da reflexão de intelectuais, mas principalmente com a reflexão de operários e trabalhadores revolucionários, nos submetem a um outro contexto cultural que, porventura, nos prepara para uma outra interpretãção do meio e da cultura dominante.

O erro de paralaxe é um erro comum a todas as camadas e prende-se intrinsecamente com um certo individualismo que se instala nos seres humanos e que talvez até lhe seja, nesta medida, natural. Ou seja, a tendência para que cada um interprete o mundo de acordo com os estímulos que recebe é uma tendência primária.

Mas façamos o seguinte desafio, de desenvolver o raciocínio de que o povo está mergulhado numa burrice colectiva e voluntária. Daí resultam as seguintes premissas:

i. o povo é genérica e voluntariamente ignorante.
ii. um grupo de indivíduos mais iluminados não são ignorantes e concordam com a primeira premissa.

Que desenvolvimentos lógicos tem este pensamento?

que os que compõem o grupo de pessoas não-ignorantes são esclarecidos. Mas porquê? Porque nasceram esclarecidos? Porque são melhores do que os restantes? Porque são mais inteligentes? Se prosseguirmos este raciocínio, veremos que não chegamos à resposta certa.

A resposta certa é: porque têm instrumentos diferentes.
Porque tiveram acesso a um condicionamento ideológico diferente, porque têm discussão colectiva, porque são alertados para informações alternativas, porque são confrontados com outros pensamentos. Ou seja, os que se encaixam no grupo dos não-ignorantes são exactamente tão inteligentes ou igualmente ignorantes como os restantes mas, a determinada altura das suas vidas foram confrontados com a possibilidade de ter outra avaliação da realidade.

As condições materiais, sociais, culturais, a educação, o posicionamento de classe, são elementos que condicionam brutalmente a capacidade de emancipação (de classe) do pensamento de cada ser humano.

O operário sem tempo e sem dinheiro não está em igualdade comparado com o burguês. O operário sem tempo e sem dinheiro tem um potencial revolucionário material supostamente mais intenso, mas é no actual contexto o mais exposto à manipulação e, consequentemente, o mais provavelmente reaccionário.

Por outro lado, o burguês dispõe das condições materiais para se manifestar reaccionário já que lhe convém, mas detém objectivamente mais capacidade para aceder a informação diversificada, podendo abdicar da sua condição de parte da classe dominante para tomar partido pela classe operária ou, como geralmente sucede, utilizar a sua capacidade cultural para agudizar a manipulação cultural das classes que explora.

O que muitos de nós, incluindo eu próprio, muitas vezes não consideramos é que este "erro de paralaxe político" é uma manifestação de individualismo que contraria a intervenção que devemos ter e exercer junto das camadas exploradas para garantir a difusão da cultura alternativa que julgamos útil à criação das condições subjectivas para a tomada de poder pelo proletariado. Ou seja, ao incorrermos neste erro, julgamo-nos (individualmente considerados) acima da camada popular de ignorantes e não compreendemos que só estamos em condições de analisar mais dados, de avaliar mais informações, porque podemos participar num fenómeno infelizmente restrito que é o da discussão colectiva e o do confronto com outros, partindo para objectivos comuns. Ou seja, o comunista é exactamente igual em ignorância e em inteligência aos restantes portugueses, trabalhadores ou não. A diferença não está no comunista, porque não nasceu assim, mas no Partido e na obra colectiva que lhe permitiu emancipar-se intelectualmente.

A tarefa urgente dos comunistas não é, pois, nada mais, nada menos, do que possibilitar a esses tais "ignorantes", a capacidade de serem confrontados com a informação alternativa, a filosofia materialista, a cultura revolucionária. Para tal, não ajudará certamente qualquer sentimento de superioridade intelectual.

6 comentários:

vasco disse...

Nem mais.

Anónimo disse...

Então espera...Só quem está no partido é que consegue "emancipar-se intelectualmente" ? Não poderemos estar a correr o risco de cair num "erro de paralaxe" de quem pertence ao colectivo?

filipe disse...

Excelente - e oportuníssima - reflexão. Que se aplica igualmente, a partir de hoje mesmo, tanto às suas erradas escolhas eleitorais como às suas erradas avaliações, quanto às funestas consequências dessas escolhas e às suas próprias responsabilidades na avalanche negra que aí vem.
De facto, não direccionemos nunca a nossa luta contra esse eleitorado que vota erradamente, mas sim e sempre contra os seus (e nossos) algozes, contra o inimigo comum. Juntos, iremos à luta - que continua!
Um abraço.

pedras contra canhões disse...

Fiz questão de dizer que essa emancipação se refere a um esclarecimento do ponto de vista das nossas opções de classe. Claro que existem outras "emancipações"...

Anónimo disse...

Qualquer reflexão que se possa fazer sobre o tema (este ou outros de outra natureza) serão sempre parciais pois têm sempre o ponto de vista do próprio e será sempre "O Homem e as suas circunstâncias" que ditarão as leituras que faz do que o rodeia. O caso das opções de classe, será a sociedade assim tão compartimentada? E será mesmo a classe uma questão de escolha?
Qual a diferença entre um operário que vota CDU e o que vota CDS (e pasmem-se porque os há!) que fazem o mesmo trabalho, cresceram juntos, vivem no mesmo prédio…, a mensagem chega do mesmo modo e no entanto … talvez a diferença não esteja tanto no partido mas na capacidade de esquecer o seu umbigo e reconhecer a existência do outro, no fundo a capacidade de se dar em prole do bem comum e ir á luta, remar contra a maré, dentro ou fora de um partido mas fazer-se á vida…
Bem sei que quem se preocupa em sobreviver não tem tempo para questões existenciais (é ouro sobre azul para quem quer manipular, e o marketing politico está na moda!), mas isso é uma falsa visão das coisas porque até esses se questionam todos os dias, poderão não ser questões tão profundas mas são válidas.
A mesma informação é “digerida” por cada pessoa de modo diferente. O mundo não é preto e branco, a maioria das vezes é cinza.
Existe vida para além do colectivo (isto não é retirar valor) e existem pessoas que lutam e se empenham diariamente para tentar fazer parte da mudança de mentalidades.
Só para esclarecer ...Votei CDU

Eduardo disse...

Gostei da análise feita. Contudo creio que deveria ser desenvolvida nalguns aspectos que ficam por esclarecer. Apesar das oportunidades, condições objectivas, culturas, preconceitos, e outras condições diferenciadas quer da burguesia quer da classe operária, existe hoje um leque de informação que é acessível a todos e que deveria ser despertado em função dos interesses de classe. A burguesia não descuida essas ferramentas para garantir o domínio das consciências. Da nossa parte, não faltam os alertas, as análises e as acções de luta para "acordar" quem anda a dormir. Fazemos muitos diagnósticos. Não é por aí que está a nossa falha. Temos é que nos auto-criticar por os erros de paralaxe, resultarem numa comunicação desadequada face ao receptor. Faltam análises mais "científicas" para conseguirmos sensibilizar e fazer compreender a nossa mensagem. Trata-se sobretudo de uma deficiência de comunicação pois como foi escrito no texto acima, "muitas vezes incorremos no erro de interpretar os outros à luz dos nossos padrões de conhecimento, culturais, sociais, económicos, políticos, ou dos padrões do meio a que estamos habituados, ignorando assim uma das componentes mais fundamentais do meio que nos rodeia: a cultura e doutrina dominantes".

Mas estou convicto que temos as condições para estudar melhor essas características do meio e, sobretudo, encontrarmos as mensagens e os métodos e os meios adequados evitando o abuso na improvisação. Para ser justo creio que temos avançado muito nesta matéria, mas não chega como estamos a ver. Temos melhorado a comunicação e as ferramentas que usamos, nomeadamente a Internet (que infelizmente não chega a muitas camadas da população particularmente aquelas a quem nos dirigimos prioritariamente), que proporciona que outras camadas discutam e alarguem a difusão da nossa mensagem.

Creio também ser muito importante neste estudo "a discussão colectiva e a capacidade que os comunistas têm de caldear experiências pessoais e colectivas sempre com o contributo decisivo da reflexão de intelectuais, mas principalmente com a reflexão de operários e trabalhadores revolucionários... que, porventura, nos prepara para uma outra interpretação do meio e da cultura dominante" ou porventura das várias culturas fundidas na cultura dominante.

Creio também ser necessário centrar a nossa atenção e energias na "A tarefa urgente dos comunistas...possibilitar a esses tais "ignorantes", a capacidade de serem confrontados com a informação alternativa...". Mas, também para essa tarefa, é preciso um método que lhe proporcione eficácia, eficácia essa tanto mais necessária quanto sabemos ter meios e energias escassos. O uso de ferramentas e métodos de trabalho pode ajudar muito a "acertar" a nossa visão tal como acontece com os métodos de correcção dos erros de paralaxe nos instrumentos de medida.