domingo, 29 de maio de 2011

no Rossio

Uma boa mão cheia de jovens, de todas as cores, e outros não jovens estavam ontem no Rossio. E eu fui lá ver e aprender.
Tenho a certeza de que poderia escrever muitas linhas sobre o que ali vi e ouvi.
Vi muitos esquerdistas, vi anarquistas, vi tipos armados em protagonistas, vi actores, vi réplicas de típicos parlamentares disfarçados pelo tom exaltado da voz teatral. Mas também vi tímidos pensadores, vi jovens a sorrir genuinamente, vi sementes revolucionárias e revoltadas.

Ali no Rossio estava um pouco de tudo, de ingenuidade e de aproveitamento. De protagonismos e de verdadeira entrega. Estavam homens e mulheres, rapazes e raparigas, que se apercebem a cada dia que passa que o capitalismo representa o suicídio lento da espécie humana, a injustiça e a miséria. Mas estavam essencialmente jovens que ali começaram a compreender o valor da reflexão colectiva.

Muitos deles, notava-se pelas intervenções e pelos aplausos contraditórios saídos das mesmas mãos, nunca haviam participado em nada assim. Isso é estimulante. Mas fazer uma casinha-da-árvore também deve ser. E a diferença entre a militância revolucionária e a ocupação política de tempos livres nestes momentos é muito, mesmo muito, ténue.

Chocou-me e alegrou-me. Chocou-me ver que aquela malta ignora por completo a história do movimento operário, do movimento comunista internacional. Chocou-me que se julguem de tal forma únicos que se dão ao luxo de desdenhar todo o imenso património da história da humanidade por um futuro melhor. Ignoram as contradições e as questões que se colocam há mais de um século aos explorados e a forma como eles têm reagido, umas vezes bem e outras vezes mal. Chocou-me o situacionismo latente e a involuntária sobranceria que constantemente saltava para o debate através das intervenções que aludiam àquela assembleia como algo nunca antes visto.

Mas curiosamente, o que me chocou foi exactamente o mesmo que me alegrou. Porque tudo isso que me chocou significa que aqueles jovens, aquela malta toda, estava a dar, isso sim, um passo por eles nunca dado. O facto de ignorarem a história do movimento revolucionário internacional - além de em aspecto algum lhes ser imputável - mostra sobranceria involuntária, mas genuína vontade. O facto de acharem que antes deles não havia luta, prova que eles próprios estão a dar os primeiros passos numa luta imensa que lhes é - e cabe-nos perceber como alterar isso - desconhecida.

Todavia, o momento não é para brincadeiras e quero dizer a toda a gente que as batalhas são e serão muitas. Que as vitórias não virão de aventureirismos ou supostos espontaneismos, não virão de inconsequentes debates, mas sim do compromisso revolucionário e de classe. E a batalha próxima que se trava são efectivamente as legislativas, quer o queiram, quer não.

E se lá se lia "que a revolução não se faz com votos" e eu não posso estar mais de acordo, mas não ficar por aqui. Porque se isso é inteira verdade, igual verdade é que também não se faz com não votos. Ou seja, neste momento concreto e neste contexto, não é não votando que para ela se contribui.

Saudações à Assembleia do Rossio.

7 comentários:

Ana Martins disse...

É isso, é isso mesmo. Agora é conseguir perceber como potenciar a vontade para que seja aproveitada pelo colectivo e não pelo oportunismo. É perceber que a auto-didacia é importante e fazer perceber que não chega. Como? Também não sei bem. Mas ir lá ver e aprender ajudou e ajudará seguramente :)

Luiz Esteves disse...

Também estive lá e revejo-me no teu post.

Aliás, diria que vi lá muito menos pessoal politicamente "ingénuo" (descomprometido soa melhor) do que tu aludes. Não pude deixar de apreciar a forma organizada como se apresentavam.

Diria que sou completamente solidário com o que se está a acontecer no Rossio, muito embora possa não concordar com tudo o que por lá se diz. Gostava também que eles fossem solidários com a nossa luta e não me parece que o sejam quando atacam todos os partidos políticos portugueses por igual - ou criticam o próprio sistema político descartando-o da dinâmica de luta social.

Enfim. Também aproveito para enviar as minhas amistosas saudações ao Rossio.

Sérgio Ribeiro disse...

Excelente reflexão. Ao vivo, no vivo.
A dimensão tempo, histórica.
Mais presente quando ignorada. Sempre tudo a começar de novo e nunca nada a começar de novo.
Vou chamar a atenção para este teu "post".
Com o "copyright" de um grande abraço...

samuel disse...

Grande texto! Para assinar por baixo... palavra por palavra.

Abraço.

Rocha disse...

Muito bom esse comentário camarada. Muito lúcido. Estou já cansado, especialmente aqui no Porto de ver camaradas a olhar para estas acampadas com uma sobranceria taxativa (preguiça mental? ou falta de entendimento do que é o marxismo?), tipo isto das acampadas é um movimento esquerdista ou pequeno-burguês e não há mais nada a dizer.

A questão que levantas de que isto está a trazer novas pessoas para a luta social e a ser uma aprendizagem para pessoas que nunca se envolveram nestas lutas (porque estavam apáticas) é por si só muito significativa.

Há fenómenos novos que merecem análise, há uma juventude que se está mexer social e politicamente. E eu vejo camaradas que se limitam a olhar para sondagens e resultados eleitorais para dizer que está tudo na mesma.

Conflito geracional? Sem dúvida. Há muita sobranceria reciproca entre os mais velhos e os mais novos.

Como jovem não posso deixar de exigir um mínimo de sensatez dos camaradas mais velhos, o 25 de Abril foi muito importante mas os tempos que correm de imensas injustiças e miséria sobretudo para os jovens não é igualmente importante?

Eu não ando aqui a arriscar couro e cabelo para que me venham dizer que a luta faz pouca diferença porque o povo vota sempre nos mesmos (e que os jovens são uma cambada de malandros). Os jovens também merecem respeito e a luta é agora, todos os dias.

pedras contra canhões disse...

Caro Rocha,
obrigado pelo teu comentário. Excepcionalmente, permiti a sua publicação. No entanto, peço-te que discutas a opinião dos "camaradas mais velhos" com eles próprios ou, porventura, com os camaradas dos organismos que integras, se for o caso.
Compreendo o que dizes, mas acho que os blogs não são o espaço para discutir a opinião deste ou daquele camarada.

abraço

gamma disse...

"O facto de ignorarem a história do movimento revolucionário internacional - além de em aspecto algum lhes ser imputável - mostra sobranceria involuntária, mas genuína vontade."
... genuína vontade de quê? De se transformar em sujeito na história. Os que importam efectivamente.

Pergunto-me quanto tempo leva a que estes "rebentos", sem pegar num único manual, tomem consciência por exemplo da necessidade de tomar em suas mãos os meios de produção, da importância de que o que isso constitui esteja nas mãos de quem produz e não de quem os explora?

Mas também pergunto, se poderiam em alguma circunstância, tomar essa consciência sem terem experimentado, (primeiro o desemprego, a precariedade, ...) mas especialmente, um qualquer Rossio de inconformismo.

Que conquista de sentido das expressões/palavras "meios de produção", "sujeito da história", se pode efectivar consequentemente senão através da realidade na primeira pessoa? De que serve ler tal e tal num livro? De que serve que alguem nos diga "meios de produção são..." "representam significativa importância para.." "foram objecto de..."?

A realidade bate a porta destes jovens (nos quais me incluo) dos nosso pais, companheiros de trabalho... Agora sim será possível consciencializar com estas palavras, expressões, todo o conhecimento acumulado de históricas lutas tem eco directo na realidade sensível à cada vez mais geral experiência pessoal.

Não existe necessidade de explicações de maior, a realidade impôe-se e auto evidencia-se. E as palavras para a descrever estão à mão de semear.

Saudações camarada
Pedro