sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Para que não passe em Branco - denúncia

Porque há coisas que não podem passar em branco, venho aqui trazer em primeira mão a transcrição das palavras mais reaccionárias que foram proferidas nos últimos tempos na Assembleia da República. Elas encerram uma visão perigosa, proto-fascista, da luta de classes e são preocupantes em si mesmas.

No entanto, três outras questões me preocupam ainda mais do que estas palavras:

1. que alguém tenha o descaramento de as produzir na Asembleia da República,
2. que a pessoa que as proferiu não foi um qualquer velho senil ou reconhecidamente fascista, mas sim um jovem socialista, acabado de chegar ao Parlamento,
3. que a bancada do PS tenha aplaudido efusivamente as palavras, como se pode ver a seguir:

"O Sr. João Galamba (PS): - a razão pela qual Portugal tem a precariedade e o desemprego que tem é em grande parte devido às estruturas sindicais, reaccionárias e de posições…

(Risos do BE e do PCP)

O Sr. João Oliveira (PCP): — Parece o CDS a falar!

O Sr. João Galamba (PS): —… que sacrificam trabalhadores"

8 comentários:

Anónimo disse...

O Sr. João Galamba não é da JS. Mais: o Sr. João Galamba era até há muito pouco tempo independente.

João Saldanha disse...

Caro Pedras contra canhões,

Também consida António Chora um proto-fascista?

Se quiser discutir a relação entre emprego-legislação laboral-sindicatos-patronato-etc, vamos a isso. Se pretende apenas insultar-me, não conte comigo.

É extraordinário como alguém que se diz herdeiro de uma tradição de pensamento na linha de Marx se veja obriado a recorrer a condenações moralistas para criticar os seus adversários.

pedras contra canhões disse...

Caro João Saldanha,

Não vejo como a transcrição literal das suas palavras pode entender-se como insulto.

Se dizer-lhe que, na minha opinião, essa tese anti-sindical encerra uma perspectiva política muito próxima das raízes do fascismo o insulta, lamento, mas continuarei a expressar essa opinião.

A demonização da luta de classes e do sindicalismo de classe, bem patentes na intervenção transcrita e no vídeo (http://www.youtube.com/watch?v=eCW04y3UWw8) são ilustrativas de uma linha de pensamento que eu julgo muito próxima da seguinte frase:

"Fascism also denies the immutable and irreparable character of the class struggle which is the natural outcome of this economic conception of history; above all it denies that the class struggle is the preponderating agent in social transformations." (tradução inglesa da brochura "A doutrina Fascista", por Mussolini e Gentile)

Aproveito para dizer ainda o seguinte: considerar que produziu uma declaração "proto-fascista" não é, como é óbvio, o mesmo que o julgar fascista ou "proto-fascista". Denuncia apenas uma declaração e um pendor ideológico, não um comportamento. Não tenho quaisquer instrumentos objectivos que me permitam considerar João Galamba um fascista nem nada próximo disso, e ainda bem. Isso não significa porém que as palavras que transcrevi neste blog não tenham de facto um pendor fascizante implícito.

Sobre António Chora, não o considerando fascista, nem proto-fascista, como é óbvio, tenho apenas a dizer que usa o estatuto de trabalhador para defender o patrão. Isso, não sendo fascista, é no entanto, qualquer outra coisa que não me cabe descrever.

Se quiser discutir a relaão entre emprego-legislação laboral-sindicatos-patronato-etc, vamos a isso? Muito bem, caro amigo. Aliás, praticamente não faço outra coisa todos os dias...

Quanto ao último parágrafo do seu comentário: não vejo em que fui moralista, mas apelo a que me ajude a não ser, pois é comportamento que não julgo dignificar a minha argumentação. De qualquer das formas, eu não usei praticamente argumentos nenhuns no post que fiz sobre as declarações do Sr Deputado João Galamba. Limitei-me a transcrever as suas palavras.

Cumprimentos

João Saldanha disse...

Caro,

eu critiquei sindicatos reaccionários, não sindicatos per se. Infelizmente, em Portugal há demasiados sindicatos que representam os interesses de certos partidos e não os dos trabalhadores. Talvez por isso a tx de sindicalização esteja a descer e seja das mais baixas da europa. será que isto não lhe suscita qualquer forma de auto-crítica? acha que é uma coincidência.

O comentário que faz sobre António Chora diz sobretudo muito (tudo?) de si.

lux disse...

Caro João saldanha (galamba),

o que diz muito em tudo o que perpassa intervenções em convenções do PS, em plenário da Assembleia da República, no próprio percurso profissional disponível no site do parlamento (esse sim diz muito - tudo? - de si), ou mesmo declarações de um economista que nunca leu a constituição, e, à imagem dos decretos de 1939 pretende que manifestações estejam sujeitas a "autorização" é que ainda não percebeu que os sindicatos a que se refere são os sindicatos da confederação da SUA ministra do trabalho. Aqueles que a troco de um punhado de euros sacrificam as horas e a vida de quem trabalha impondo as adaptabilidades, os horários concentrados, os bancos de horas. Ou mesmo um governo que, com a alteração legislativa condiciona a actividade sindical - desde a entrada dos delegados sindicais nas empresas, ao crédito de horas, à representatividade dos sindicatos - tanto no sector privado como no público.
Um governo que desbarata portarias de extensão para que os trabalhadores não tenham que se sindicalizar. Um governo que queria mesmo impor uma "taxa moderadora" aos trabalhadores não sindicalizados a favor dos sindicatos negociantes, evitando a sindicalização. Um governo que permite a substituição de grevistas e persegue dirigentes sindicais como tão recentemente se verificou no distrito de Aveiro. Um governo que exige bases de dados de grevistas.
Mas, claro, não vamos esperar que o João Galamba saiba nada disto.
Porque não quer saber.
Porque a realidade que conhece é a virtual, é a dos jornais ou dos ministérios e rtp onde passou de nomeação em nomeação.
Mas que dos livros que claramente não leu, onde cita coisas que marx não escreveu, se atreve - sim, atreve - a afirmar algo que está longe de compreender.
Para muitos o que disse já disse tudo de si. e por mais que tente invocar ou limpar o nome com chamamentos de esquerda, já não consegue. as palavras foram ditas e transcritas.

BTW - o mussolini nos seus early days era militante socialista. acabou por dizer, por outras palavras, o que disse o sr. galamba. ainda está a tempo de reconsiderar.

Anónimo disse...

"Infelizmente, em Portugal há demasiados sindicatos que representam os interesses de certos partidos e não os dos trabalhadores." - concordo. isto http://2.bp.blogspot.com/_mlm3l3IZzrs/Svyfm8Y0pBI/AAAAAAAAAKY/3LlDNisZKe4/s1600-h/1.jpg é uma vergonha.

pedras contra canhões disse...

obrigado anónimo! já conhecia a foto, mas assenta neste debate que nem uma luva!

samuel disse...

Há coisas e declarações que não é fácil emendar... :-)))