segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Uma candidatura determinante para o futuro

Há uma certa "esquerda moderna" que teima em avaliar os sucessos e insucessos dos comunistas em função dos seus resultados eleitorais. Curiosamente, nessa matéria, confunde-se um tanto ou quanto com a "bafienta direita".

A campanha de Francisco Lopes, que corporizou uma candidatura à Presidência da República apoiada pelo PCP, PEV e ID, foi notável em todos os sentidos. Quer naqueles que o Bruno Carvalho já refere quanto à quase inexistente projecção mediática do candidato à data do anúncio da sua candidatura, quer nas restantes questões abordadas.

Mobilizou milhares de cidadãos para a vida política, ao contrário das restantes campanhas que se viram vazias de gente, mas acima de tudo a campanha levada a cabo por Francisco Lopes foi de uma importância incontornável porque foi a única a afirmar a necessidade de ruptura e de mudança com as políticas em curso. Claro que o BE, como francisco louçã demonstra invertebradamente no seu artigo sobre as presidenciais, prefere ignorar a estrondosa contradição em que enfiou milhares de pessoas de esquerda quando confrontadas com o apoio a um candidato do governo e atacar a candidatura do PCP com base exclusivamente no seu resultado eleitoral e na mensagem de ruptura que ela comportava. Na prática, o artigo de louça tem um só objectivo: responsabilizar o PCP pela ridicularia de campanha em que o próprio louça acabou por enfiar o seu grupelho e todos os que confiavam ou tinham ainda esperanças na mensagem do BE.

Adiante. Aquilo que BE, tal como os comentadores burgueses da nossa praça não vão perceber é que a avaliação da necessidade de apresentação de uma candidatura e a escolha de um candidato no PCP não é feita em função da obtenção de resultados eleitorais, mas na compreensão do acto eleitoral como um momento importante para a construção de novos caminhos. Se o PCP não apresentasse um candidato e apoiasse um outro, nesta conjuntura específica, podia ser (e talvez justamente) acusado de promover a ilusão de que existia algum voto alternativo a Cavaco, assim servindo de capacho - como o BE - a uma burguesia dominante que tanto usa a "esquerda" como a "direita" para garantir a estabilidade dos seus privilégios.

A apresentação de um candidato como Francisco Lopes revela bem que o PCP dedicou um dos seus mais destacados quadros para uma tarefa que o PCP considera da maior importância, demonstrando também a necessidade de emendar eventuais meias-tintas, meias-rupturas, agudizando o discurso anti-capitalista e afirmando a necessidade de profunda mudança perante o cenário de fingimentos alegristas e cavaquistas. Não contribuiu assim o PCP, em momento algum, para limpar ou branquear imagens de responáveis pela situação em que o país se encontra, mas não perdeu um segundo sem colocar as questões determinantes em cima da mesa - a produção nacional, a financeirização da economia, o salário, o emprego, a educação, a saúde e a cultura. Estas eleições teriam sido um fingimento total se o PCP não assumisse a responsabilidade de assegurar a centenas de milhares de pessoas a possibilidade de votar num projecto que se posiciona diferentemente sobre as questões fundamentais da política nacional e internacional.

Louçã chega ao cúmulo de fingir esquecer-se que a actual candidatura de Alegre só é comparável com a soma das candidaturas Alegre, Soares, Louçã e Garcia Pereira, assim evitando referir-se à perda assombrosa de um total de mais de um milhão de votos.

Aqueles que insitirem em avaliar a prestação política do PCP através de resultados eleitorais, ainda que o façam de forma genuinamente interessada, não podem compreender a real dimensão da participação de Francisco Lopes nas eleições presidenciais. Perante a ofensiva material e ideológica contra os trabalhadores, a obrigação dos trabalhadores é construir a luta, reforçar a resistência e contribuir para diluir ilusões e clarificar a cena política. O que muitos ainda não perceberam é que a História da Humanidade não se escreve com resultados eleitorais.

Para quem possa julgar que os comunistas tentarão passar por este resultado como "gato pelas brasas", julgo poder dizer que estão enganados. Não julguem que os comunistas não discutirão aprofundadamente as suas insuficiências, que não buscarão formas de reforçar no futuro os seus resultados (sim, também eleitorais) e que não avaliarão as componentes negativas desta campanha. O que não farão é arrepiar caminho para ignorar o importante contributo que deram para a clarificação de inúmeros aspectos da vida política nacional. O que não farão é apoiar ou parasitar candidaturas por motivos meramente oportunistas e, diria eu, até mesmo pessoais (como julgo que terá feito louçã). O que os comunistas não farão é centralizar a avaliação eleitoral como instrumento único da leitura do cenário político e da situação actual da luta de classes em Portugal. Quem quiser, ainda que por exercício de honestidade intelectual, fazer a leitura destas eleições em função de uma análise de classe e não em função de resultados eleitorais e de jogos super-estruturais dos partidos envolvidos, julgo que assim comprovará.

E estou convencido que, com esta candidatura, o PCP deu o melhor contributo que poderia ter dado para criar mais condições de reforçar a luta dos trabalhadores contra a política de direita, principalmente, com os olhos postos nos dias futuros.

3 comentários:

vasco disse...

É isso. 100% de acordo.

Maria disse...

Excelente!
O Futuro será construído pelas nossas mãos, todas.

Abraço.

filipe guerra disse...

Excelente post. Creio que as analises que vêmsendo feitas colectivamente(ontem e amanha) e as individuais feitas por diversos militantes do P. aos resultados eleitorais são de grande riqueza e diversidade.
Não sendo um elemento de analise decisivo, creio que até é de pormenor,julgo merecer uma valoraçao positiva no caso da nossa candidatura, o facto de as nossas propostas/candidaturas estarem a conseguir resistir à evolução demográfica do povo português com os custos inerentes no seu posicionamento político/ ideológico e de classe.

Passarei por aqui mais vezes.
Bom trabalho,
Um abraço!