quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

eu não sou vosso colega

Há muitos que concebem o trabalho parlamentar de deputado como profissão, carreira ou mesmo como integração pessoal num clube restrito, numa qualquer elite colegial. É compreensível que assim seja, particularmente para aqueles que olham a política como um espaço de realização individual e como um espaço de gestão de interesses entre comparsas. “um bocado para mim, um bocado para ti. Agora uma vantagenzinha para o meu partido, depois uma para o teu.”

E não anda longe da verdade essa concepção, pois que a esmagadora maioria do nosso parlamento está de facto nas mãos dos mesmos, muito embora sob signos partidários diferentes. O deputado do PS é colega do deputado do PSD, lá no entendimento deles. E vice-versa. E os do BE são amigalhaços e colegas dos restantes, é assim que entendem. Aqui no clube, remamos todos para o mesmo lado, porque isso da luta de classes é coisa do passado, se é que alguma vez existiu.

Pois bem, este é um desabafo em registo aberto: Eu não sou vosso colega.
Os deputados comunistas não estão no parlamento como num clube, ou como membros de uma irmandade, tampouco são colegas seja de quem for. Os meus colegas são os homens e as mulheres que trabalham na minha profissão, são os geólogos que por esse mundo fora trabalham na mesma profissão que eu. A condição de deputado não me define, não me é intrínseca, nem sequer permanente. É uma tarefa, independentemente da sua duração. O que sou mesmo é comunista, português, homem e geólogo.

Eu não sou vosso colega e parem de insistir nesse registo balofo de quem se vê no topo da carreira depois de ter escalado o aparelho interno do seu partido.
Sem prejuízo de amizades, simpatias, antipatias e animosidades, que posso ter tanto com camaradas, quanto com adversários políticos, no parlamento tenho apenas dois tipos de relação:

Adversidade política; para com os deputados dos restantes partidos. Para com os que usam o poder como mais-valia própria e o colocam ao serviço da classe dominante para manter as relações de exploração. Para com os que desejam a manutenção do regime criminoso do qual retiram o seu próprio bem-estar.

Camaradagem; para com os deputados e restantes trabalhadores parlamentares do meu Grupo Parlamentar. Para com os que entregam o seu trabalho para transformar.

11 comentários:

Xavier Brandão disse...

Não quero andar a mexericar, mas com que o disse, há uma dúvida que me fica - e importante, porque com quem andamos também define quem somos.

O que é quer dizer ao certo com o comentário sobre os deputados do BE? Especifique, sff.

E também me enerva ver que, mesmo quando o BE e PC votam no mesmo sentido, é vê-los a aplaudir apenas os do seu campo. O PC não é, nisso, mais exemplar que os outros.

João Valente Aguiar disse...

Meu caro Camarada,

Sempre do lado certo da Barricada! Goste-se, ou não, existem barricadas e antagonismos de classes insuperáveis e incapazes de se harmonizar.

Um abraço fraterno

Lena disse...

Muito bem! Para que não fiquem duvidas.

Tiago Mouta disse...

Grandioso...;)

Tabaleao disse...

Gostei mesmo muito de ler isto!

M. Abrantes disse...

colega (é)
s. 2 gén.
Companheiro na mesma colectividade, profissão ou funções, em especial na classe civil e eclesiástica. (Na classe militar emprega-se geralmente o termo camarada.)

A sua posição tem um certo carácter marcial. Não andará a precisar de beber uns copos e pôr as mãos nos rabo dumas gajas?

Sérgio Ribeiro disse...

É issso, camarada.
ESTÁS em tarefa de deputado, não ÉS deputado.Não passaste a ser outra coisa quando foste eleito representante de QUEM ÉS numa frente de luta.

To be or not to be!

Um grande abraço

samuel disse...

Esta até deu gosto!!!
Muito bom!

Abraço.

pedras contra canhões disse...

Caro amigo Xavier,

quando me refiro ao BE desta forma é baseado no que vejo diariamente e no comportamento desse Partido/Grupo/agremiação e na sua forma de funcionamento. Entenda que eu estou a criticar, acima de tudo, o posicionamento de classe dos diversos partidos. Ou melhor, a natureza de classe.

E se é verdade que a natureza do PS, PSD, CDS e BE é uma natureza burguesa, embora com expressões políticas bastante diversas, o mesmo não se pode dizer sobre o PCP.

Mas não lhe peço que nos considere exemplares de porra nenhuma. O Xavier já escolheu visivelmente o seu exemplo. Reconheça ao menos a diferença.

O que quero evidenciar é a postura de cada partido e de cada deputado. Basta ver a forma como no BE entendem o parlamento como o centro nevrálgico de toda a sua intervenção partidária, como colocam na super-estrutura a enfÂse da sua intervenção e como desprezam e manipulam os movimentos, que entretanto criaram como se não houvesse amanhã com funcinários do próprio BE.

Também poderíamos tentar saber como gere o BE os salários dos seus deputados e se ficam todos a ganhar o mesmo que ganhavam antes de o serem... Não sendo determinante, diz muito sobre a forma como se entende o mandato.

VouNaBroa disse...

Caríssimo,
apesar de "vasculhar" diariamente os mais diversos blogs e notícias, raramente li um artigo/post ao qual fosse capaz de entregar a minha subscrição. Não pertenço a nenhum partido politico, muito menos sou deputado, e partilho da opinião generalizada sobre a classe política nacional relativamente á sua medíocre prestação e á sua falta de espírito de serviço nacional.
Por esse motivo, julgo também ser necessário, senão imperativo, reconhecer quando no referido panorama, se encontra alguém, e não me refiro estritamente á pessoa, que parece demarcar-se do habitual "modus operandi", e parecer compreender que a tarefa que lhe foi atribuída, é de facto um serviço à Nação. Deveriam, os demais deputados, sentir o orgulho de terem sido os eleitos para a representação dos seus pares, ao invés do amiúde proveito próprio.
Pelo atrás exposto, pretendo por isso expressar-lhe o meu obrigado, como cidadão da Pátria lusa, por condignamente representar o eleitorado que o elegeu.
Obrigado.

pedras contra canhões disse...

Caro VounaBroa,

Agradeço as tuas palavras. Mas não em nome individual porque se tenho esta visão do trabalho parlamentar é porque estou integrado num colectivo chamado Partido Comunista Português. Por isso, o teu cumprimento é extensível a todos os comunistas que exercem cargos públicos de eleição.

Abraçõ