Há muitos que concebem o trabalho parlamentar de deputado como profissão, carreira ou mesmo como integração pessoal num clube restrito, numa qualquer elite colegial. É compreensível que assim seja, particularmente para aqueles que olham a política como um espaço de realização individual e como um espaço de gestão de interesses entre comparsas. “um bocado para mim, um bocado para ti. Agora uma vantagenzinha para o meu partido, depois uma para o teu.”
E não anda longe da verdade essa concepção, pois que a esmagadora maioria do nosso parlamento está de facto nas mãos dos mesmos, muito embora sob signos partidários diferentes. O deputado do PS é colega do deputado do PSD, lá no entendimento deles. E vice-versa. E os do BE são amigalhaços e colegas dos restantes, é assim que entendem. Aqui no clube, remamos todos para o mesmo lado, porque isso da luta de classes é coisa do passado, se é que alguma vez existiu.
Pois bem, este é um desabafo em registo aberto: Eu não sou vosso colega.
Os deputados comunistas não estão no parlamento como num clube, ou como membros de uma irmandade, tampouco são colegas seja de quem for. Os meus colegas são os homens e as mulheres que trabalham na minha profissão, são os geólogos que por esse mundo fora trabalham na mesma profissão que eu. A condição de deputado não me define, não me é intrínseca, nem sequer permanente. É uma tarefa, independentemente da sua duração. O que sou mesmo é comunista, português, homem e geólogo.
Eu não sou vosso colega e parem de insistir nesse registo balofo de quem se vê no topo da carreira depois de ter escalado o aparelho interno do seu partido.
Sem prejuízo de amizades, simpatias, antipatias e animosidades, que posso ter tanto com camaradas, quanto com adversários políticos, no parlamento tenho apenas dois tipos de relação:
Adversidade política; para com os deputados dos restantes partidos. Para com os que usam o poder como mais-valia própria e o colocam ao serviço da classe dominante para manter as relações de exploração. Para com os que desejam a manutenção do regime criminoso do qual retiram o seu próprio bem-estar.
Camaradagem; para com os deputados e restantes trabalhadores parlamentares do meu Grupo Parlamentar. Para com os que entregam o seu trabalho para transformar.
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
PISA 2009
O estudo PISA 2009, divulgado em Dezembro de 2010, mas ainda sem a ficha técnica (que será divulgada apenas em 2011) apresenta dados sobre Portugal que merecem reflexão. O estudo PISA avalia três componentes essenciais das competências e capacidades dos estudantes com 15 anos de idade, a saber: leitura, matemática, ciências.
Este estudo não visa comparar ou avaliar políticas educativas, mas antes identificar experiências positivas e pontos críticos dos sistemas educativos dos países da OCDE e seus parceiros.
Em primeiro lugar é importante deixar claro que, na minha opinião, o próprio ponto de partida deste estudo, como outros da OCDE, não é dissociável da natureza de classe da organização. Ou seja, a OCDE, sendo um conjunto de estados burgueses e capitalistas, que compartilham os objectivos de aprofundamento da exploração capitalista. No âmbito da Educação, a ideologia capitalista, bem marcada na OCDE, não possibilita uma abordagem ou avaliação sem conteúdo político. No quadro das relações capitalistas e da organização social e económica capitalistas, a educação é um instrumento de domínio de classe e de manutenção da relação classista vigente. Ou seja, a Educação serve a classe dominante, distribuindo pelas camadas exploradas apenas as competências necessárias para que desempenhem o seu papel de exploradas e de submissas ao modelo económico e à classe dominante.
O facto de a OCDE identificar num sistema educativo um conjunto de melhorias, não pode estar desligado da concepção ideológica que a OCDE tem da Educação em si e dos seus objectivos. Do ponto de vista do paradigma capitalista "da aquisição de competências", um sistema educativo como o americano (estados unidos)tem um desempenho óptimo, não obstante a sua população ser ignorante em grande escala. Os americanos, o seu sistema educativo, estão orientados para a aquisição de competências, sem a correspondente criação e transmissão de conhecimentos. A elitização do conhecimento nos EUA conhece uma expressão muito mais brutal do que a europeia e do que a Portuguesa mas isso é objectivamente valorizado num estudo como o PISA.
Portanto, há-que enquadrar devidamente os estudos e o tratamento dos dados que o estudo PISA divulga. Sem os empolgamentos e sem paixão, importa analisá-los objectiva e desapaixonadamente.
Após essa clarificação, sobre a natureza de classe da OCDE, aprofundemos os resultados do estudo de 2009.
O governo identifica como causas para a melhoria dos níveis em Portugal, à boleia do estudo PISA, as políticas de gestão escolar, o plano tecnológico da educação, as aulas de substituição, a avaliação de professores e a modernização do parque escolar, bem como ao reordenamento da rede escolar. Então vejamos: os estudantes avaliados são miúdos de 15 anos de idade no sistema educativo e esses miúdos não tiveram computadores no primeiro ciclo do básico, nem inglês, nem AEC. Esses miúdos nunca estudaram numa escola modernizada pela Parque Escolar EPE. Da mesma forma, esses miúdos, submetidos ao estudo em 2009 nunca foram sujeitos aos efeitos, bons ou maus, do reordenamento da rede escolar que sucedeu em Agosto de 2010. mas tudo vale na manipulação de dados para fazer a habitual propaganda.
Outro dado curioso é o facto de Portugal se encontrar numa trajectória ascendente no plano dos resultados no estudo PISA entre 2000 e 2003, sofrendo uma quebra muito significativa nesse crescimento em 2006 (ano em que o Governo PS/Sócrates declarou guerra à escola pública e aos professores). Em 2009 verificou-se na prática apenas a recuperação para a linha de crescimento que se vinha conhecendo antes. Ou seja, apesar da ofensiva que o Governo dirigiu às escolas, aos professoress, aos funcionários e aos estudantes, apesar da pobreza galopante, da precariezação das relações laborais nas escolas, apesar dos cortes na acção social escolar, apesar do desemprego, do fim da democracia nas escolas, os estudantes, professores e famílias conseguiram retornar ao regular nível de progresso e consolidação pedagógica das aprendizagens (ainda assim, de acordo com os padrões estabelecidos pela OCDE).
É o próprio "jugular", blog de serviço ao governo que acaba por demonstrar que a principal lição a tirar de PISA não são os estrondosos sucessos de 2009, mas o descalabro de 2006, como se verifica no gráfico aí exposto por Palmira F. Silva. Na verdade, 2009 demonstra que recuperámos a trajectória regular do nosso sistema educativo. Apesar de tudo. Apesar do governo. Apesar de Maria de Lurdes Rodrigues. Apesar dos cortes no financiamento, apesar da precariedade entre professores, entre funcionários. Apesar dos baixos salários, das turmas sobrelotadas, apesar das escolas destroçadas, apesar das novas oportunidades e do desvio de miúdos para o ensino profissional.
Este estudo não visa comparar ou avaliar políticas educativas, mas antes identificar experiências positivas e pontos críticos dos sistemas educativos dos países da OCDE e seus parceiros.
Em primeiro lugar é importante deixar claro que, na minha opinião, o próprio ponto de partida deste estudo, como outros da OCDE, não é dissociável da natureza de classe da organização. Ou seja, a OCDE, sendo um conjunto de estados burgueses e capitalistas, que compartilham os objectivos de aprofundamento da exploração capitalista. No âmbito da Educação, a ideologia capitalista, bem marcada na OCDE, não possibilita uma abordagem ou avaliação sem conteúdo político. No quadro das relações capitalistas e da organização social e económica capitalistas, a educação é um instrumento de domínio de classe e de manutenção da relação classista vigente. Ou seja, a Educação serve a classe dominante, distribuindo pelas camadas exploradas apenas as competências necessárias para que desempenhem o seu papel de exploradas e de submissas ao modelo económico e à classe dominante.
O facto de a OCDE identificar num sistema educativo um conjunto de melhorias, não pode estar desligado da concepção ideológica que a OCDE tem da Educação em si e dos seus objectivos. Do ponto de vista do paradigma capitalista "da aquisição de competências", um sistema educativo como o americano (estados unidos)tem um desempenho óptimo, não obstante a sua população ser ignorante em grande escala. Os americanos, o seu sistema educativo, estão orientados para a aquisição de competências, sem a correspondente criação e transmissão de conhecimentos. A elitização do conhecimento nos EUA conhece uma expressão muito mais brutal do que a europeia e do que a Portuguesa mas isso é objectivamente valorizado num estudo como o PISA.
Portanto, há-que enquadrar devidamente os estudos e o tratamento dos dados que o estudo PISA divulga. Sem os empolgamentos e sem paixão, importa analisá-los objectiva e desapaixonadamente.
Após essa clarificação, sobre a natureza de classe da OCDE, aprofundemos os resultados do estudo de 2009.
O governo identifica como causas para a melhoria dos níveis em Portugal, à boleia do estudo PISA, as políticas de gestão escolar, o plano tecnológico da educação, as aulas de substituição, a avaliação de professores e a modernização do parque escolar, bem como ao reordenamento da rede escolar. Então vejamos: os estudantes avaliados são miúdos de 15 anos de idade no sistema educativo e esses miúdos não tiveram computadores no primeiro ciclo do básico, nem inglês, nem AEC. Esses miúdos nunca estudaram numa escola modernizada pela Parque Escolar EPE. Da mesma forma, esses miúdos, submetidos ao estudo em 2009 nunca foram sujeitos aos efeitos, bons ou maus, do reordenamento da rede escolar que sucedeu em Agosto de 2010. mas tudo vale na manipulação de dados para fazer a habitual propaganda.
Outro dado curioso é o facto de Portugal se encontrar numa trajectória ascendente no plano dos resultados no estudo PISA entre 2000 e 2003, sofrendo uma quebra muito significativa nesse crescimento em 2006 (ano em que o Governo PS/Sócrates declarou guerra à escola pública e aos professores). Em 2009 verificou-se na prática apenas a recuperação para a linha de crescimento que se vinha conhecendo antes. Ou seja, apesar da ofensiva que o Governo dirigiu às escolas, aos professoress, aos funcionários e aos estudantes, apesar da pobreza galopante, da precariezação das relações laborais nas escolas, apesar dos cortes na acção social escolar, apesar do desemprego, do fim da democracia nas escolas, os estudantes, professores e famílias conseguiram retornar ao regular nível de progresso e consolidação pedagógica das aprendizagens (ainda assim, de acordo com os padrões estabelecidos pela OCDE).
É o próprio "jugular", blog de serviço ao governo que acaba por demonstrar que a principal lição a tirar de PISA não são os estrondosos sucessos de 2009, mas o descalabro de 2006, como se verifica no gráfico aí exposto por Palmira F. Silva. Na verdade, 2009 demonstra que recuperámos a trajectória regular do nosso sistema educativo. Apesar de tudo. Apesar do governo. Apesar de Maria de Lurdes Rodrigues. Apesar dos cortes no financiamento, apesar da precariedade entre professores, entre funcionários. Apesar dos baixos salários, das turmas sobrelotadas, apesar das escolas destroçadas, apesar das novas oportunidades e do desvio de miúdos para o ensino profissional.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Francisco Lopes
A candidatura de Francisco Lopes à Presidência da República tem apresentado ao país uma nova perspectiva de cumprimento dos deveres e poderes presidenciais, rompendo com o tradicionalismo do apadrinhamento às políticas dos governos e às políticas de direita que vêm, paulatinamente, enterrando o país no lodo social e económico.
Ao contrário daquilo a que estamos habituados no mundo da política, Francisco Lopes não se assume como um protagonista da transformação, mas como um elemento que pretende expressar um pulsar do povo, um pulsar de revolta, mas essencialmente uma pulsante força colectiva. Ao contrário dos restantes, Francisco Lopes não se presta a ser rede de segurança das políticas do inevitável, nem apaziguador dos justificados descontentamentos. Francisco Lopes, juntamente com o PCP, de onde emerge a usa candidatura, não afirmam esta candidatura no espaço etéreo das teses dominantes, mas radicam-na nos sentimentos mais profundos dos jovens, mulheres e homens que vivem do seu trabalho ou do trabalho da sua família.
É importante ecoar pelo país um apelo, um apelo de força, de confiança e de convocação colectiva contra a resignação. A candidatura que apoio não tem como objectivo único, pelo menos na minha opinião, derrotar Cavaco Silva e a direita que o apoia. Não basta isso.
É preciso afirmar que a situação em que os povos do mundo se encontram, a encruzilhada em que nos encontramos também em Portugal representa um momento de forte aproximação dos limites materiais e históricos do capitalismo. Por isso mesmo, a viragem e a construção da alternativa é cada vez mais a questão central. A entrega do nosso voto a uma candidatura é uma acção decisiva. E cabe-nos decidir se queremos optar pela continuidade das políticas, independentemente dos protagonistas, ou se assumimos a necessidade de mudar profundamente a forma como se pratica política em Portugal.
Mas desengane-se quem espera desta candidatura as facilidades e as promessas de vento. Esta é uma candidatura que não se afirma como solução, mas como catalizadora e defensora das soluções que, colectivamente, os portugueses podem construir. Uma candidatura que não se senta no muro, que não quer estar bem com deus e o diabo, uma candidatura que se posiciona claramente ao lado dos interesses nacionais, por isso patriótica, do lado de quem trabalha para viver, por isso de esquerda.
A ciência, a cultura, as artes, os jovens e os seus problemas, os trabalhadores da indústria, dos serviços, os trabalhadores sem vínculo, os micro, pequenos e médios empresários, e essencialmente a capacidade produtiva nacional são diariamente os motes de uma campanha que se apresenta claramente com mais dinâmica que todas as restantes juntas, ainda que não mereça nas televisões, rádios e jornais, a cobertura minimamente ajustada. Esta é a candidatura que se anuncia aos cidadãos do nosso país, que se dispõe a estar do seu lado, que se apresenta pronta a cumprir as responsabilidades que lhe queiram atribuir.
Francisco Lopes passa uma mensagem essencial nesta pré-campanha: a de que o país tem alternativa, potencial natural e humano, para crescer num rumo de progresso e bem-estar, de melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores, jovens, reformados, idosos, num desenvolvimento harmonioso que capitalize a capacidade nacional de produção material e imaterial. E passa essa mensagem com um desafio implícito que valoriza e distingue a sua franqueza, sinceridade e transparência: é o conjunto, o somatório das forças criativas e produtivas, da vontade dos portugueses contra a resignação e a conformidade, que alterará o rumo da história e determinará a ruptura. Não é o candidato, não é o presidente, não é o governo, mas a força dos povos. A grande questão é se o fará com o apoio dos presidentes e governos, ou contra eles.
Tudo justifica a apresentação da candidatura e o voto no projecto que comporta.
Mas há um elemento que, apesar de tudo, se evidencia como motivo principal: é que Francisco Lopes é o único homem que pode assumir o juramento presidencial com a mão sobre a nossa Constituição da República sem mentir.
Ao contrário daquilo a que estamos habituados no mundo da política, Francisco Lopes não se assume como um protagonista da transformação, mas como um elemento que pretende expressar um pulsar do povo, um pulsar de revolta, mas essencialmente uma pulsante força colectiva. Ao contrário dos restantes, Francisco Lopes não se presta a ser rede de segurança das políticas do inevitável, nem apaziguador dos justificados descontentamentos. Francisco Lopes, juntamente com o PCP, de onde emerge a usa candidatura, não afirmam esta candidatura no espaço etéreo das teses dominantes, mas radicam-na nos sentimentos mais profundos dos jovens, mulheres e homens que vivem do seu trabalho ou do trabalho da sua família.
É importante ecoar pelo país um apelo, um apelo de força, de confiança e de convocação colectiva contra a resignação. A candidatura que apoio não tem como objectivo único, pelo menos na minha opinião, derrotar Cavaco Silva e a direita que o apoia. Não basta isso.
É preciso afirmar que a situação em que os povos do mundo se encontram, a encruzilhada em que nos encontramos também em Portugal representa um momento de forte aproximação dos limites materiais e históricos do capitalismo. Por isso mesmo, a viragem e a construção da alternativa é cada vez mais a questão central. A entrega do nosso voto a uma candidatura é uma acção decisiva. E cabe-nos decidir se queremos optar pela continuidade das políticas, independentemente dos protagonistas, ou se assumimos a necessidade de mudar profundamente a forma como se pratica política em Portugal.
Mas desengane-se quem espera desta candidatura as facilidades e as promessas de vento. Esta é uma candidatura que não se afirma como solução, mas como catalizadora e defensora das soluções que, colectivamente, os portugueses podem construir. Uma candidatura que não se senta no muro, que não quer estar bem com deus e o diabo, uma candidatura que se posiciona claramente ao lado dos interesses nacionais, por isso patriótica, do lado de quem trabalha para viver, por isso de esquerda.
A ciência, a cultura, as artes, os jovens e os seus problemas, os trabalhadores da indústria, dos serviços, os trabalhadores sem vínculo, os micro, pequenos e médios empresários, e essencialmente a capacidade produtiva nacional são diariamente os motes de uma campanha que se apresenta claramente com mais dinâmica que todas as restantes juntas, ainda que não mereça nas televisões, rádios e jornais, a cobertura minimamente ajustada. Esta é a candidatura que se anuncia aos cidadãos do nosso país, que se dispõe a estar do seu lado, que se apresenta pronta a cumprir as responsabilidades que lhe queiram atribuir.
Francisco Lopes passa uma mensagem essencial nesta pré-campanha: a de que o país tem alternativa, potencial natural e humano, para crescer num rumo de progresso e bem-estar, de melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores, jovens, reformados, idosos, num desenvolvimento harmonioso que capitalize a capacidade nacional de produção material e imaterial. E passa essa mensagem com um desafio implícito que valoriza e distingue a sua franqueza, sinceridade e transparência: é o conjunto, o somatório das forças criativas e produtivas, da vontade dos portugueses contra a resignação e a conformidade, que alterará o rumo da história e determinará a ruptura. Não é o candidato, não é o presidente, não é o governo, mas a força dos povos. A grande questão é se o fará com o apoio dos presidentes e governos, ou contra eles.
Tudo justifica a apresentação da candidatura e o voto no projecto que comporta.
Mas há um elemento que, apesar de tudo, se evidencia como motivo principal: é que Francisco Lopes é o único homem que pode assumir o juramento presidencial com a mão sobre a nossa Constituição da República sem mentir.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
A grandiosa Greve Geral de 24 de Novembro
A greve geral foi um êxito. Ou melhor, foi um passo em direcção ao êxito. E muitos tremeram com a sua dimensão e com o seu poder. E se muitos se encolheram nos seus cantinhos como ratos, muitos houve que vociferaram de peito cheio - sempre protegidos pela intocabilidade que o regime lhes garante - contra a greve e contra os grevistas. Tudo serviu, no dia 24 de Novembro para atacar a greve. Mas a cassete anti-greve mudou. Se em outros momentos, a linha de ataque mais profunda e sentida era a da desvalorização da mobilização, desta feita isso não poderia servir. Vai daí que jornais e comentadores, patrões e capatazes, reproduziram à exaustão a viperina tese de que a greve é um atentado às liberdades individuais. Talvez não seja de todo mentira: a greve é um atentado às liberdades individuais do patrão para explorar o trabalhador como entende, é um ataque à liberdade individual do burguês que quer ter a estrada desimpedida para o seu mercedes, mas que não pode porque não há transportes públicos a funcionar. É um ataque à liberdade individual de rastejar e ajoelhar perante a ditadura do vale-tudo.
Muito haveria para escrever sobre a greve geral, sobre os corajosos e persistentes homens e mulheres dos piquetes, sobre os trabalhadores que voltaram para trás, sobre os que se juntaram aos piquetes, sobre o frio e a chuva, sobre a polícia, sobre o vinho e as bifanas no piquete dos CTT do Cabo Ruivo, sobre a adesão dos jovens trabalhadores precários no call-center da PT, sobre a paragem das linhas urbanas de comboios, sobre o piquete jovem do CCO da PT do Braço de Prata, sobre o papel dos sindicalistas, dos comunistas, dos jovens, das mulheres resistentes e perseverantes. Muito haveria ou haverá por dizer, sem dúvida.
Mas hoje, reconheço, quero responder a uma provocação sincera dirigida aos deputados do PCP na Assembleia da República pelo já nosso conhecido amigo João Galamba, deputado do PS no seu blog-capacho.
Diz-nos Galamba, em post ilustrado com o título certo (25 de Novembro) que os Deputados do PCP demonstraram bem o entendimento que têm da democracia parlamentar por terem faltado a uma sessão plenária onde se votava o Orçamento do Estado para 2011 e estarem assim, como ele diz, "ao lado dos grevistas". Não diz nenhuma mentira João Galamba e, de certa forma, deixa-me calmo com o seu reparo. Ou melhor ainda, deixa-me mais confiante por saber que os deputados do PCP entendem a democracia como algo muito mais vasto, muito mais amplo, muito mais importante do que a discussão e votação parlamentar. E fico descansado por saber que os deputados comunistas estão ao lado dos grevistas, mas mesmo ao lado, mesmo nos piquetes, mesmo presentes, mesmo solidários, mesmo empenhados, mesmo comprometidos. Estão lá mesmo sem as televisões que preferem falar dos 10 funcionários do BE que deram o dia de salário ao BE para manifestar solidariedade com a greve, ignorando as centenas de funcionários do PCP, os deputados comunistas e os milhares e milhares de militantes, da JCP e do PCP que abdicam do salário para passar mais de 24 horas em trabalho revolucionário, ali ao lado dos trabalhadores que decidiram usar o seu direito à greve para não ver o governo usá-los a eles.
Fico até com um certo sentimento de orgulho por saber que os deputados comunistas, em quem votei, estiveram onde deviam estar no dia da greve, estiveram onde a luta lhes exigia, dignificando o papel de deputado e da assembleia da república, espaço da democracia que, ao contrário do que pensa João Galamba, não se esgota no interior daquelas paredes. Aliás, por oposição, é muitas vezes dentro dessas paredes que a espezinham e matam. Enquanto João Galamba votava o Orçamento do Estado para atacar os direitos de quem o elegeu, o PCP juntou-se aos que o elegeram. Cada um tem uma visão própria da tarefa parlamentar. Fico feliz por estar do lado certo.
É que para João Galamba, ter uma visão correcta do mandato parlamentar é aprovar o contrário do que se prometeu nas eleições, é roubar ainda mais aos bolsos dos trabalhadores. Que é o que ele faz e fez.
Ou será faltar para ir passear, para gerir o gabinete ou o escritório de advogados, ou será faltar porque a ordem de trabalhos do dia não interessava, ou por qualquer outro motivo de igual importância? é que 11 deputados do PCP faltaram para estar presentes na greve e um número muito maior falta todos os dias nas bancadas do PS e PSD para fazer sabe-se lá o quê. Sobre isso, que diz Galamba?
Muito haveria para escrever sobre a greve geral, sobre os corajosos e persistentes homens e mulheres dos piquetes, sobre os trabalhadores que voltaram para trás, sobre os que se juntaram aos piquetes, sobre o frio e a chuva, sobre a polícia, sobre o vinho e as bifanas no piquete dos CTT do Cabo Ruivo, sobre a adesão dos jovens trabalhadores precários no call-center da PT, sobre a paragem das linhas urbanas de comboios, sobre o piquete jovem do CCO da PT do Braço de Prata, sobre o papel dos sindicalistas, dos comunistas, dos jovens, das mulheres resistentes e perseverantes. Muito haveria ou haverá por dizer, sem dúvida.
Mas hoje, reconheço, quero responder a uma provocação sincera dirigida aos deputados do PCP na Assembleia da República pelo já nosso conhecido amigo João Galamba, deputado do PS no seu blog-capacho.
Diz-nos Galamba, em post ilustrado com o título certo (25 de Novembro) que os Deputados do PCP demonstraram bem o entendimento que têm da democracia parlamentar por terem faltado a uma sessão plenária onde se votava o Orçamento do Estado para 2011 e estarem assim, como ele diz, "ao lado dos grevistas". Não diz nenhuma mentira João Galamba e, de certa forma, deixa-me calmo com o seu reparo. Ou melhor ainda, deixa-me mais confiante por saber que os deputados do PCP entendem a democracia como algo muito mais vasto, muito mais amplo, muito mais importante do que a discussão e votação parlamentar. E fico descansado por saber que os deputados comunistas estão ao lado dos grevistas, mas mesmo ao lado, mesmo nos piquetes, mesmo presentes, mesmo solidários, mesmo empenhados, mesmo comprometidos. Estão lá mesmo sem as televisões que preferem falar dos 10 funcionários do BE que deram o dia de salário ao BE para manifestar solidariedade com a greve, ignorando as centenas de funcionários do PCP, os deputados comunistas e os milhares e milhares de militantes, da JCP e do PCP que abdicam do salário para passar mais de 24 horas em trabalho revolucionário, ali ao lado dos trabalhadores que decidiram usar o seu direito à greve para não ver o governo usá-los a eles.
Fico até com um certo sentimento de orgulho por saber que os deputados comunistas, em quem votei, estiveram onde deviam estar no dia da greve, estiveram onde a luta lhes exigia, dignificando o papel de deputado e da assembleia da república, espaço da democracia que, ao contrário do que pensa João Galamba, não se esgota no interior daquelas paredes. Aliás, por oposição, é muitas vezes dentro dessas paredes que a espezinham e matam. Enquanto João Galamba votava o Orçamento do Estado para atacar os direitos de quem o elegeu, o PCP juntou-se aos que o elegeram. Cada um tem uma visão própria da tarefa parlamentar. Fico feliz por estar do lado certo.
É que para João Galamba, ter uma visão correcta do mandato parlamentar é aprovar o contrário do que se prometeu nas eleições, é roubar ainda mais aos bolsos dos trabalhadores. Que é o que ele faz e fez.
Ou será faltar para ir passear, para gerir o gabinete ou o escritório de advogados, ou será faltar porque a ordem de trabalhos do dia não interessava, ou por qualquer outro motivo de igual importância? é que 11 deputados do PCP faltaram para estar presentes na greve e um número muito maior falta todos os dias nas bancadas do PS e PSD para fazer sabe-se lá o quê. Sobre isso, que diz Galamba?
Conferência sobre Alterações Climáticas (mais uma)
Em ambiente cada vez mais distante das reais preocupações dos povos do mundo, incluindo obviamente o povo português, reúnem chefes executivos, engravatados, cientistas pagos, mercenários políticos, activistas e militantes do capitalismo, em cimeiras e encontros diversos em torno do novo filão doutrinário. Se tempos houve em que as palestras de "empreededorismo", gestão e todo o tipo de engodos e "formações profissionais" constituíam agremiações de "yuppies" e outros que tais para fazer passar a mensagem, as "alterações climáticas" acrescentam-se hoje ao rol de matérias cripto-religiosas que servem de base a um sem fim de palestras, encontros, cimeiras, conferências, nacionais ou internacionais.
O dinheiro dos trabalhadores, dos contribuintes como lhes costumam chamar na era moderna em que vivemos, é canalizado para alimentar estes encontros periódicos e algo frequentes, sem que deles porém resulte qualquer tipo de medida mensurável ou sequer consequente. Hoje, em Lisboa, a Comissão Parlamentar de Ambiente, Ordenamento do Território e Poder Local pôs-se uma vez mais em bicos de pés para tentar surgir no mapa do novo dogma mundial. Pois que isto hoje de falar de Ambiente sem entrar em pânico com o suposto aumento radical de temperaturas atmosféricas é coisa que não merece sequer respeito e muito menos referência. E vai daí que a CAOTPL organiza isto.
A sala do senado recebe umas boas dezenas de "activistas" que actualmente vivem praticamente disto. A Assembleia da República arvora-se em centro de debate e discussão sobre o tema e o seu presidente põe o nome numas boas centenas de convites, assim contribuindo certamente para o enriquecimento do seu currículo em defesa da política que sempre o animou - o ferveroso americanismo e capitalismo.
Perguntaremos, daqui a uns anos talvez, que resultados tiveram as sessões de debate absoultamente infértil da CAOTPL em torno das alterações climáticas? O que acrescentou além da repetição nauseante da tese esgotada? O que melhorou nas vidas dos portugueses os gastos, em euros, em combustíveis, em papelada, em tudo e mais alguma coisa, depois desta 3ª conferência sobre alterações climáticas?
E muitos deputados foram ouvir as ladainhas do costume, sobre o aumento do nível do mar, a perigosidade dos gases com efeito-estufa, e tudo o mais que já se sabe porque até já se aprende na escola a inegável tese do aquecimento global. E muitos deputados farão do que ali ouviram o guião para espalhar por aí esse pânico bacoco e pacóvio em torno das alterações climáticas, sem saber sequer do que falam. E muitos farão do que ali ouviram o guião para a sua actuação política, a bem da nação, claro está, mas principalmente a bem do Governo que, enquanto finge combater uma coisa que ninguém pode provar se existe ou não, tem perdão garantido para atacar a torto e a direitos os direitos mais elementares dos portugueses.
Enquanto finge combater as alterações climáticas, ninguém se apercebe da participação nas guerras no iraque, no afeganistão, cujos povos tampouco terão tempo de se preocupar com esse tal de aquecimento global porque antes disso, muito antes disso, lhes matarão os pais, os avós e os filhos, lhes torturarão os irmãos e os camaradas.
Enquanto Sócrates, armado em salvador, fala de energias renováveis e de combate às emissões de gases com efeitos estufa, lá consegue às escondidas ir promovendo a presença da EDP em moçambique, ou no brasil, devastando terras lavráveis e cultiváveis, desalojando povoações inteiras sem qualquer tipo de indemnização (interessante consultar).
Enquanto se pavoneiam com as eólicas, lá vão afagando as costas dos accionistas da EDP e das outras empresas das renováveis que enfiam milhões e milhões de euros nos bolsos à custa da nossa ingenuidade ambientalista.
Enquanto se vangloriam com a indústria limpa, permitem e apadrinham a destruição e a devastação de recursos naturais, biológicos e geológicos, a privatização da água e do litoral, das praias e dos rios. E enquanto agitam a bandeira do ambiente, trucidam as leis para permitir a construção de "projectos de interesse nacional" que fazem da nossa terra o seu quintal.
E enquanto falam de progresso e tecnologias verdes, lá vão acabando com os vínculos laborais, o bem-estar da população, os direitos no trabalho, à saúde, à educação e à qualidade de vida, a um salário digno, à habitação, etc.
Enquanto esses militantes do apocalipse se passeam nos corredores das "assembleias da república" de todo o mundo, muitos pagos a peso de ouro, e se fazem passar por activistas empenhados, mais não fazem na verdade do que suportar as causas e as origens do actual estado das coisas.
Enquanto insistem no capitalismo, o capitalismo destrói-nos a Terra.
O dinheiro dos trabalhadores, dos contribuintes como lhes costumam chamar na era moderna em que vivemos, é canalizado para alimentar estes encontros periódicos e algo frequentes, sem que deles porém resulte qualquer tipo de medida mensurável ou sequer consequente. Hoje, em Lisboa, a Comissão Parlamentar de Ambiente, Ordenamento do Território e Poder Local pôs-se uma vez mais em bicos de pés para tentar surgir no mapa do novo dogma mundial. Pois que isto hoje de falar de Ambiente sem entrar em pânico com o suposto aumento radical de temperaturas atmosféricas é coisa que não merece sequer respeito e muito menos referência. E vai daí que a CAOTPL organiza isto.
A sala do senado recebe umas boas dezenas de "activistas" que actualmente vivem praticamente disto. A Assembleia da República arvora-se em centro de debate e discussão sobre o tema e o seu presidente põe o nome numas boas centenas de convites, assim contribuindo certamente para o enriquecimento do seu currículo em defesa da política que sempre o animou - o ferveroso americanismo e capitalismo.
Perguntaremos, daqui a uns anos talvez, que resultados tiveram as sessões de debate absoultamente infértil da CAOTPL em torno das alterações climáticas? O que acrescentou além da repetição nauseante da tese esgotada? O que melhorou nas vidas dos portugueses os gastos, em euros, em combustíveis, em papelada, em tudo e mais alguma coisa, depois desta 3ª conferência sobre alterações climáticas?
E muitos deputados foram ouvir as ladainhas do costume, sobre o aumento do nível do mar, a perigosidade dos gases com efeito-estufa, e tudo o mais que já se sabe porque até já se aprende na escola a inegável tese do aquecimento global. E muitos deputados farão do que ali ouviram o guião para espalhar por aí esse pânico bacoco e pacóvio em torno das alterações climáticas, sem saber sequer do que falam. E muitos farão do que ali ouviram o guião para a sua actuação política, a bem da nação, claro está, mas principalmente a bem do Governo que, enquanto finge combater uma coisa que ninguém pode provar se existe ou não, tem perdão garantido para atacar a torto e a direitos os direitos mais elementares dos portugueses.
Enquanto finge combater as alterações climáticas, ninguém se apercebe da participação nas guerras no iraque, no afeganistão, cujos povos tampouco terão tempo de se preocupar com esse tal de aquecimento global porque antes disso, muito antes disso, lhes matarão os pais, os avós e os filhos, lhes torturarão os irmãos e os camaradas.
Enquanto Sócrates, armado em salvador, fala de energias renováveis e de combate às emissões de gases com efeitos estufa, lá consegue às escondidas ir promovendo a presença da EDP em moçambique, ou no brasil, devastando terras lavráveis e cultiváveis, desalojando povoações inteiras sem qualquer tipo de indemnização (interessante consultar).
Enquanto se pavoneiam com as eólicas, lá vão afagando as costas dos accionistas da EDP e das outras empresas das renováveis que enfiam milhões e milhões de euros nos bolsos à custa da nossa ingenuidade ambientalista.
Enquanto se vangloriam com a indústria limpa, permitem e apadrinham a destruição e a devastação de recursos naturais, biológicos e geológicos, a privatização da água e do litoral, das praias e dos rios. E enquanto agitam a bandeira do ambiente, trucidam as leis para permitir a construção de "projectos de interesse nacional" que fazem da nossa terra o seu quintal.
E enquanto falam de progresso e tecnologias verdes, lá vão acabando com os vínculos laborais, o bem-estar da população, os direitos no trabalho, à saúde, à educação e à qualidade de vida, a um salário digno, à habitação, etc.
Enquanto esses militantes do apocalipse se passeam nos corredores das "assembleias da república" de todo o mundo, muitos pagos a peso de ouro, e se fazem passar por activistas empenhados, mais não fazem na verdade do que suportar as causas e as origens do actual estado das coisas.
Enquanto insistem no capitalismo, o capitalismo destrói-nos a Terra.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Corrijam-me se eu estiver enganado
Ou estou muito enganado ou recordo-me de ver surgir no Facebook e outras plataformas digitais, uma tal de Plataforma anti-guerra, anti-nato promovida abertamente por indivíduos, dirigentes e militantes do BE.
A uma ou duas semanas da realização da Cimeira da OTAN em Portugal, li nos jornais que o BE havia desconvocado uma manifestação própria com concentração em local distinto do da grandiosa manifestação da campanha Paz Sim, Nato Não! promovida essencialmente pelo Conselho Português para a Paz e Cooperação. O BE, seus dirigentes e esquerdistas seus satélites, tamanha é a aversão que têm a tudo o que não lhes garanta protagonismos, geraram então essa plataforma PAGAN que, curiosamente, acabaram por não assumir a não ser pela participação do Deputado José Soeiro no desfile que essa PAGAN acabou por promover aproveitando a manifestação Paz Sim, NATO não!. O que importa para esses senhores do BE não é a força e a eficiência da mobilização, é a capacidade de dessa manifestação, pequena ou grande, retirarem dividendos. A conotação da PAGAN com movimentos esquerdistas e radicalistas, violentos por sinal, levou o BE a desvincular-se da plataforma que havia criado. Era um instrumento de projecção que acabou por se virar contra o dono. Nada mais simples: faz-se de onta que nunca se teve nada a ver com aquilo e colamo-nos à do CPPC.
Além deste comportamento parasitário, de usar para se promover aquilo que não se ajudou a construir, o BE conta com a habitual cobertura mediática e branqueamento do seu papel divisionista em todas as esferas da luta dos trabalhadores e do povo. O BE tentou garantir o falhanço da mobilização do CPPC, que contava também com o apoio do PCP e JCP e muitos outros movimentos políticos ou associativos. Mas não teve sucesso no boicote e a plataforma que construiu para se auto-projectar acabou por se revelar contra-producente para a imagem do BE. Num instante, o BE se demarca da sua criação.
Mas o mais grave não é o comportamento dos esquerdistas do BE. O mais grave é a cobertura que a comunicação social dá a estes comportamentos. Nos jornais e telejornais surgia em toda a força a imagem de um BE presente na manifestação, escondendo a presença massiva dos comunistas e jovens comunistas portugueses. Ou seja, não só a comunicação social dominante esconde a presença predominante na manifestação como atribui a mobilização daqueles milhares e milhares de activistas contra a guerra a um grupelho que tentou até ao fim promover a sua própria luta, isolando-se do movimento da paz e tentando projectar uma PAGAN que afinal de contas, não existia, como se verificou.
(nota de rodapé: julgo que todos têm legitimidade para participar nas manifestações pela Paz, como é óbvio, sejam esquerdistas, anarquistas ou o que quer que os defina. o que importa é a unidade e a convergência nos objectivos. Para isso é que se constituem plataformas, para chegar a entendimentos e bases de unidade na acção. Ora, o que o BE fez foi precisamente o oposto: não participar, não mobilizar as massas populares, não contribuir na definição de métodos e objectivos, mas surgir no final como se fosse o autor da manifestação. Todos os que se juntaram, militantes do BE, ou activistas pela Paz sem partido, para mim são benvindos desde que o que for decidido colectivamente (incluindo com eles) seja cumprido ou pelo menos respeitado. O mal, e falo infelizmente por experiência própria, é que para esses grupos tudo o que for diferente do que eles pretendem é para combater e como não têm capacidade para fazer as suas próprias iniciativas e actividades parasitam as restantes.)
A uma ou duas semanas da realização da Cimeira da OTAN em Portugal, li nos jornais que o BE havia desconvocado uma manifestação própria com concentração em local distinto do da grandiosa manifestação da campanha Paz Sim, Nato Não! promovida essencialmente pelo Conselho Português para a Paz e Cooperação. O BE, seus dirigentes e esquerdistas seus satélites, tamanha é a aversão que têm a tudo o que não lhes garanta protagonismos, geraram então essa plataforma PAGAN que, curiosamente, acabaram por não assumir a não ser pela participação do Deputado José Soeiro no desfile que essa PAGAN acabou por promover aproveitando a manifestação Paz Sim, NATO não!. O que importa para esses senhores do BE não é a força e a eficiência da mobilização, é a capacidade de dessa manifestação, pequena ou grande, retirarem dividendos. A conotação da PAGAN com movimentos esquerdistas e radicalistas, violentos por sinal, levou o BE a desvincular-se da plataforma que havia criado. Era um instrumento de projecção que acabou por se virar contra o dono. Nada mais simples: faz-se de onta que nunca se teve nada a ver com aquilo e colamo-nos à do CPPC.
Além deste comportamento parasitário, de usar para se promover aquilo que não se ajudou a construir, o BE conta com a habitual cobertura mediática e branqueamento do seu papel divisionista em todas as esferas da luta dos trabalhadores e do povo. O BE tentou garantir o falhanço da mobilização do CPPC, que contava também com o apoio do PCP e JCP e muitos outros movimentos políticos ou associativos. Mas não teve sucesso no boicote e a plataforma que construiu para se auto-projectar acabou por se revelar contra-producente para a imagem do BE. Num instante, o BE se demarca da sua criação.
Mas o mais grave não é o comportamento dos esquerdistas do BE. O mais grave é a cobertura que a comunicação social dá a estes comportamentos. Nos jornais e telejornais surgia em toda a força a imagem de um BE presente na manifestação, escondendo a presença massiva dos comunistas e jovens comunistas portugueses. Ou seja, não só a comunicação social dominante esconde a presença predominante na manifestação como atribui a mobilização daqueles milhares e milhares de activistas contra a guerra a um grupelho que tentou até ao fim promover a sua própria luta, isolando-se do movimento da paz e tentando projectar uma PAGAN que afinal de contas, não existia, como se verificou.
(nota de rodapé: julgo que todos têm legitimidade para participar nas manifestações pela Paz, como é óbvio, sejam esquerdistas, anarquistas ou o que quer que os defina. o que importa é a unidade e a convergência nos objectivos. Para isso é que se constituem plataformas, para chegar a entendimentos e bases de unidade na acção. Ora, o que o BE fez foi precisamente o oposto: não participar, não mobilizar as massas populares, não contribuir na definição de métodos e objectivos, mas surgir no final como se fosse o autor da manifestação. Todos os que se juntaram, militantes do BE, ou activistas pela Paz sem partido, para mim são benvindos desde que o que for decidido colectivamente (incluindo com eles) seja cumprido ou pelo menos respeitado. O mal, e falo infelizmente por experiência própria, é que para esses grupos tudo o que for diferente do que eles pretendem é para combater e como não têm capacidade para fazer as suas próprias iniciativas e actividades parasitam as restantes.)
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
paredes brancas, mentes em branco
Já tive a oportunidade e o prazer de participar na pintura de inúmeros murais e pichagens políticas, principalmente promovidos pela organização da Juventude Comunista Portuguesa. Aliás, pode até dizer-se que comecei assim a minha militância em 1994. Lembro bem a primeira vez que pintei, num muro de contenção de terras de Setúbal, pegando num pincel colectivo. Alguns dias depois das cargas policiais sobre inúmeras manifestações populares e estudantis - ordenadas por cavaco Silva - pintámos na parede uma figura que se espancava a si própria com uma moca sob o olhar da polícia de intervenção. Lia-se "AVISO: ajude a polícia de intervenção, bata-se a si próprio." Nos escudos dos polícias desenhados no muro, via-se uma laranja simbolizando o PSD no poder e no comando das forças policiais que agiam por ordem política.
Durante o fascismo, as paredes estariam eventualmente mais brancas, mas o povo estava amordaçado. Uma vez por outra, uma pichagem marcava um acontecimento, um assassinato político, assinalava uma manifestação de solidariedade para com os comunistas ou democratas presos, apelava a uma luta ou uma greve. Durante o fascismo, pintar uma parede com uma mensagem política, independentemente da propriedade, era um crime punido pesadamente. As paredes estariam limpas, mas o mundo, as cidades, eram mais feias.
Aos muros brancos, ou limpos, pode corresponder não uma vontade colectiva mas uma imposição oligárquica. A sensibilidade estética colectiva é também fruto de uma relação de classe, de uma ideologia dominante e, como tal, um meio higienizado (como o que cada vez mais vivemos) gera uma apologia do asséptico. No entanto, quando a imposição é submiliminar e a manipulação ideológica de massas é sub-reptícia, cria-se a ilusão de que não existe imposição. A percepção de massas, embora não seja apenas isso, é também a soma das percepções individuais. A política contra a arte urbana, a expressão política, a liberdade ideológica parte do pressuposto de que a "guerra social", a luta de classes, se extingiu e que hoje todos os interesses se debatem em pé de igualdade. Ora, isso não é verdade.
Por isso mesmo, o direito de expressar por todas as formas uma legítima posição posição política, desde que sem provocar dano ou prejuízo ao colectivo, e desde que reversível, será sempre um direito hierarquicamente superior ao de desejar ver as paredes limpas. Ou seja, o meu direito a passar por muros brancos porque gosto deles brancos não pode sobrepôr-se ao direito de expressar a minha opinião política nesse muro, desde que daí não decorra a destruição parcial ou total da função do muro ou a corrupção de um elemento estético valioso, como um monumento.
Claro que a utilização da propriedade privada para efeitos de pintura mural deve depender de uma aceitação do proprietário, muito embora a parte exterior do muro seja de uso colectivo, dada a sua exposição. Assim, mesmo um privado que exponha um muro à via pública deve estar sujeito a regras e às normas que regulam a via pública. Nesse sentido, todos os muros deveriam ser "pintáveis" desde que não exista aviso em contrário por parte do proprietário. Aliás, o mesmo se passa com a colagem de cartazes: um proprietário que não queira cartazes afixados na sua propriedade afixa um aviso nesse sentido. Caso contrário, expõe-se às normas de utilização da via pública. O revestimento de uma parede exterior, de um muro, etc., tem objectivamente um uso colectivo, ainda que meramente estético, independentemente da propriedade do edifício.
O julgamento que fazemos do papel da pintura mural está intimamente relacionado também com o grau de consolidação democrática que julgamos existir, que percepcionamos. O facto de existir um sistema que esconde as suas assimterias, as suas desproporções, que reprime e oprime as tendências divergentes, não significa que não persistam interesses revolucionários ou meramente contestatários. O direito de expressar uma posição política através da pintura, assinada e sobre a qual se assume uma responsabilidade política de autoria, não pode ser ultrapassado pelo gosto de ver paredes brancas. Igualmente, a utilização das paredes para expressão artística, desde que identificável o autor, não deve ser sumariamente considerada crime, mas apenas em caso de se verificar dano decorrente ou queixa justificada por parte do proprietário.
Não deixaram de pintar os comunistas, os anarquistas, e outros antifascistas, durante os períodos mais negros das ditaduras por todo o mundo, não será agora, em nome da democracia que nos proíbem de pintar. Muitos e muitos murais, muita poesia, muita letra de revolta, muitos muros sujos de raiva e revolta, muitos gritos pintados, muita tinta libertária, libertadora, revolucionária!
Prefiro viver numa cidade, num país, livre e de paredes pintadas, que numa terra higienizada, onde a democracia e a liberdade sucumbem à monocultura, à apatia, à sacralização do silêncio, mesmo que todas as paredes e muros se mostrem imaculados.
Durante o fascismo, as paredes estariam eventualmente mais brancas, mas o povo estava amordaçado. Uma vez por outra, uma pichagem marcava um acontecimento, um assassinato político, assinalava uma manifestação de solidariedade para com os comunistas ou democratas presos, apelava a uma luta ou uma greve. Durante o fascismo, pintar uma parede com uma mensagem política, independentemente da propriedade, era um crime punido pesadamente. As paredes estariam limpas, mas o mundo, as cidades, eram mais feias.
Aos muros brancos, ou limpos, pode corresponder não uma vontade colectiva mas uma imposição oligárquica. A sensibilidade estética colectiva é também fruto de uma relação de classe, de uma ideologia dominante e, como tal, um meio higienizado (como o que cada vez mais vivemos) gera uma apologia do asséptico. No entanto, quando a imposição é submiliminar e a manipulação ideológica de massas é sub-reptícia, cria-se a ilusão de que não existe imposição. A percepção de massas, embora não seja apenas isso, é também a soma das percepções individuais. A política contra a arte urbana, a expressão política, a liberdade ideológica parte do pressuposto de que a "guerra social", a luta de classes, se extingiu e que hoje todos os interesses se debatem em pé de igualdade. Ora, isso não é verdade.
Por isso mesmo, o direito de expressar por todas as formas uma legítima posição posição política, desde que sem provocar dano ou prejuízo ao colectivo, e desde que reversível, será sempre um direito hierarquicamente superior ao de desejar ver as paredes limpas. Ou seja, o meu direito a passar por muros brancos porque gosto deles brancos não pode sobrepôr-se ao direito de expressar a minha opinião política nesse muro, desde que daí não decorra a destruição parcial ou total da função do muro ou a corrupção de um elemento estético valioso, como um monumento.
Claro que a utilização da propriedade privada para efeitos de pintura mural deve depender de uma aceitação do proprietário, muito embora a parte exterior do muro seja de uso colectivo, dada a sua exposição. Assim, mesmo um privado que exponha um muro à via pública deve estar sujeito a regras e às normas que regulam a via pública. Nesse sentido, todos os muros deveriam ser "pintáveis" desde que não exista aviso em contrário por parte do proprietário. Aliás, o mesmo se passa com a colagem de cartazes: um proprietário que não queira cartazes afixados na sua propriedade afixa um aviso nesse sentido. Caso contrário, expõe-se às normas de utilização da via pública. O revestimento de uma parede exterior, de um muro, etc., tem objectivamente um uso colectivo, ainda que meramente estético, independentemente da propriedade do edifício.
O julgamento que fazemos do papel da pintura mural está intimamente relacionado também com o grau de consolidação democrática que julgamos existir, que percepcionamos. O facto de existir um sistema que esconde as suas assimterias, as suas desproporções, que reprime e oprime as tendências divergentes, não significa que não persistam interesses revolucionários ou meramente contestatários. O direito de expressar uma posição política através da pintura, assinada e sobre a qual se assume uma responsabilidade política de autoria, não pode ser ultrapassado pelo gosto de ver paredes brancas. Igualmente, a utilização das paredes para expressão artística, desde que identificável o autor, não deve ser sumariamente considerada crime, mas apenas em caso de se verificar dano decorrente ou queixa justificada por parte do proprietário.
Não deixaram de pintar os comunistas, os anarquistas, e outros antifascistas, durante os períodos mais negros das ditaduras por todo o mundo, não será agora, em nome da democracia que nos proíbem de pintar. Muitos e muitos murais, muita poesia, muita letra de revolta, muitos muros sujos de raiva e revolta, muitos gritos pintados, muita tinta libertária, libertadora, revolucionária!
Prefiro viver numa cidade, num país, livre e de paredes pintadas, que numa terra higienizada, onde a democracia e a liberdade sucumbem à monocultura, à apatia, à sacralização do silêncio, mesmo que todas as paredes e muros se mostrem imaculados.
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